O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, aceitou uma proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para atuar como mediador em negociações de paz com a Rússia. O encontro entre os dois líderes ocorreu às margens da cúpula do G7, na França. Na ocasião, Zelensky também pediu que aliados intensifiquem a pressão sobre Moscou para encerrar o conflito, que já dura mais de quatro anos.
Mudança de postura de Kiev
A analista de Relações Internacionais Fernanda Magnotta avaliou que o episódio representa uma quebra de paradigma em relação aos últimos anos. Segundo ela, Lula já havia manifestado interesse em atuar como mediador, mas teve suas credenciais rejeitadas em diferentes ocasiões por americanos e ucranianos. Magnotta recordou que, em conversa com Zelensky no fim de 2024, o presidente ucraniano foi enfático ao dizer que o Brasil não reunia as condições necessárias naquele momento.
Para a analista, a reconfiguração das posições dos atores envolvidos explica a mudança. Com a saída de Joe Biden e a entrada de Donald Trump nos Estados Unidos, havia expectativa de que Washington se tornasse o melhor intermediador, dado seu acesso a Moscou. No entanto, nem Trump conseguiu avançar de forma assertiva. “Portanto, o Brasil volta à tona como uma alternativa viável“, destacou Magnotta, em entrevista ao CNN 360º.
Propostas brasileiras e papel de Lula
De acordo com informações divulgadas por Kiev, Lula apresentou diversas ideias durante o encontro bilateral, incluindo o contato com integrantes do Conselho de Segurança da ONU. Além disso, Zelensky teria pedido a Lula que ligasse para Vladimir Putin para intermediar um possível encontro pessoal ou uma chamada entre os dois líderes.
Potencial diplomático do Brasil
Magnotta elencou elementos que credenciam o Brasil nesse papel. O país funciona como agente capaz de se comunicar tanto com o Ocidente quanto com o Oriente, com capacidade de interlocução onde outros atores não conseguem. “O poder do Brasil não é um poder coercitivo, como seria o caso do papel de Trump e dos Estados Unidos. Mas tem sim uma capacidade que nesse momento é valorizada, que é o seu acesso político”, explicou.
Esse acesso junto a Rússia, China, países do sul global, Europa e Estados Unidos ajuda a criar canais diplomáticos num momento em que eles estão fragmentados. A analista também destacou que o Brasil poderia trazer a China para um esforço diplomático mais estruturado, já que Pequim se aproxima cada vez mais de Moscou por razões geopolíticas e econômicas, e o Brasil poderia ajudar a relativizar essa aproximação.
Além disso, Magnotta ressaltou que o Brasil possui um amplo repertório histórico em medidas que criam condições intermediárias para um eventual cessar-fogo, como trocas de prisioneiros, segurança alimentar, proteção de infraestrutura civil, segurança nuclear e criação de corredores humanitários. “Tudo isso são mecanismos que muitas vezes não resolvem a guerra, mas desaceleram os danos, tanto econômicos quanto de vidas humanas”, afirmou.
Desafios para a mediação brasileira
Apesar da janela de oportunidade, Magnotta apontou obstáculos significativos. O primeiro é a chamada “sombra da crise de credibilidade” junto à Ucrânia. Embora essa desconfiança esteja momentaneamente amenizada, durante boa parte do conflito Kiev considerou o Brasil excessivamente compreensivo com as posições russas. “Isso não é uma coisa que desaparece de uma hora para outra”, ponderou.
Outro desafio é a ausência de instrumentos de pressão direta sobre a Rússia. “O Brasil tem acesso político e abertura de canal com Moscou, mas não necessariamente exerce influência direta. O Brasil não tem instrumentos de pressão objetivos que possam fazer com que os russos recalculem a rota”, explicou.
Soma-se a isso as posições diametralmente opostas entre Rússia e Ucrânia: Moscou exige o reconhecimento dos ganhos territoriais no Donbas e na Crimeia, e Kiev rejeita qualquer concessão permanente e busca a aproximação com a OTAN e a União Europeia.
A analista também alertou para a concorrência de outros canais diplomáticos, como Turquia, China, União Europeia e países do Golfo. “O Brasil acaba aparecendo como um país que precisa provar a que veio, mostrar qual é o valor agregado para que ele não seja apenas mais um”, disse.
Por fim, Magnotta enfatizou que o desfecho da guerra continua condicionado a decisões que emanam de três centros gravitacionais de poder: Washington, Moscou e Pequim. “O Brasil pode facilitar, aproximar, propor, sugerir, mas quem tem que estar com a caneta na mão e disposto a sentar para conversar continuam sendo Trump, Putin e Zelensky, além dos chineses, evidentemente”, concluiu.