Um estudo publicado na revista Science no dia 4 de julho indica que zangões possuem a capacidade de resolver problemas de forma espontânea, sem necessidade de tentativa e erro. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Oulu, na Finlândia, testou a habilidade dos insetos de manipular objetos para alcançar uma recompensa.
No experimento, os zangões foram colocados em uma arena circular com cerca de 10 centímetros de diâmetro e 3,2 centímetros de altura, onde podiam andar, mas não voar. No centro, havia uma flor azul artificial contendo uma solução açucarada. Em uma das etapas, a flor foi movida para o teto da arena, e uma bola de espuma plástica foi posicionada no chão. 75% das abelhas que haviam sido previamente expostas à flor e à bola conseguiram rolar a bola até o buraco correto e subir nela para acessar a flor, demonstrando a solução do problema.
O autor principal, Akshaye Bhambore, pesquisador de doutorado da Universidade de Oulu, afirmou: “Mostramos pela primeira vez que os zangões conseguem resolver uma tarefa de manipulação de objetos completamente nova, espontaneamente e sem treinamento prévio, ou seja, sem qualquer tentativa e erro.”
Contexto histórico e científico
O experimento remete ao trabalho do psicólogo alemão Wolfgang Köhler, que há mais de 100 anos demonstrou que chimpanzés eram capazes de raciocínio instintivo ao empilhar caixas para alcançar uma banana. Até então, essa capacidade cognitiva era observada apenas em grandes símios, elefantes e algumas aves. O novo estudo sugere que invertebrados como os zangões também podem apresentar esse tipo de raciocínio, ampliando o debate sobre inteligência animal.
James Nieh, professor do departamento de ecologia, comportamento e evolução da Universidade da Califórnia em San Diego, que não participou do estudo, comentou: “As abelhas normalmente não movem objetos para criar plataformas, então esse não é um comportamento natural de um zangão. Mas o experimento mostra que elas conseguem se lembrar da localização de um objetivo oculto e manipular um objeto em relação a esse objetivo.”
Metodologia e controles
Para garantir que as abelhas não estavam agindo aleatoriamente, os pesquisadores realizaram variações do experimento. Em um cenário, a flor não era visível da posição inicial da bola. Mesmo assim, as abelhas expostas às etapas anteriores conseguiram resolver o problema. Grupos de controle que não tiveram contato prévio com a bola ou a flor não conseguiram realizar a tarefa, indicando que a experiência anterior era necessária.
O coautor do estudo, Olli Loukola, ecologista comportamental da Universidade de Oulu, explicou: “Precisamos eliminar a neofobia, ou medo de objetos novos, dando-lhes a bola e mostrando que é um objeto seguro. E eles também precisam da motivação, ou da associação entre uma recompensa e o azul da flor. Mas esses dois fatores juntos lhes fornecem informações suficientes para resolver espontaneamente o problema real.”
Loukola destacou que as abelhas exibiram um “comportamento verdadeiramente direcionado a um objetivo”, diferentemente de tarefas mais simples em que apenas empurravam a bola. Ele acrescentou que o estudo não classifica o ato de rolar a bola como “uso de ferramenta”, uma definição debatida no comportamento animal.
Implicações e reações
Natalie Hempel de Ibarra, professora associada de neuroetologia da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que não participou da pesquisa, afirmou que o estudo mostra que os insetos podem aprender e mudar seu comportamento de maneiras que os cientistas estão começando a compreender. Ela acrescentou que essa flexibilidade pode influenciar como as abelhas e outros polinizadores interagem com as flores, ajudando-os a lidar com mudanças ambientais.
Lars Chittka, professor de ecologia sensorial e comportamental da Queen Mary University of London, que também não participou do estudo, comparou o desempenho das abelhas ao de humanos resolvendo problemas: “De certa forma, é como se você e eu entrássemos em uma sala, encontrássemos algo no teto que precisa ser consertado, percebêssemos que precisamos de uma cadeira ou escada, fôssemos a outra sala buscá-la e voltássemos com o equipamento para o local correto.” Ele acrescentou que os resultados devem levar os cientistas a repensar a inteligência em sistemas nervosos pequenos.
Com informações de CNN Brasil.