Imagens gravadas pela câmera corporal de um policial militar revelam que o agente afirmou que mataria Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, antes de efetuar seis disparos contra a vítima, que se rendia. O caso ocorreu em 29 de abril na avenida Raimundo Pereira de Magalhães, no bairro Jaraguá, zona norte de São Paulo, e as filmagens vieram a público nesta semana.

Dinâmica da ocorrência

Segundo informações da ocorrência, o policial estava com outro militar em um posto de combustíveis quando um motoboy os abordou, relatando que havia sido ameaçado por um homem com um facão após uma discussão no trânsito. Os agentes seguiram até a avenida, mas o motoboy foi na frente, alcançou o carro onde estava Igor e buzina. A vítima desceu do veículo com o facão em punho.

Imagens de câmera de monitoramento da região mostram que, ao avistar a viatura da Polícia Militar, Igor parou e colocou o facão no chão. Nesse momento, o motoboy já estava distante. A viatura se aproximou, e o policial disse ao colega: "Peraí que eu vou matar ele. Vou dar tiro". Em seguida, ouviram-se sete tiros, sendo seis disparados pelo PM que falou, que começou a atirar antes mesmo de descer completamente da viatura. O colega efetuou um disparo. O motoboy demonstrou desespero ao ver a cena.

Socorro e reação do policial

Após os disparos, foram chamados reforços e outras viaturas chegaram ao local. Um policial e uma mulher que passava prestaram socorro a Igor enquanto o resgate não chegava. O autor dos disparos chorou e pediu que a vítima não morresse: "A ambulância está chegando. Igor, a ambulância está chegando. Pelo amor de Deus, não morre não, mano. Fica vivo. Respira, irmão, por favor, por favor. Não morre não, moço, por favor". Outro policial o afastou e o levou para outra viatura, mas ele voltou para perto da vítima e repetiu os apelos. Depois, afastou-se novamente e rezou o Pai Nosso. Igor foi encaminhado ao Hospital Parada de Taipas, onde morreu.

Durante a ocorrência, um homem que estava no local parabenizou o PM pela atuação, mas questionou por que não atirou nas pernas da vítima. O policial respondeu: "Tiro na perna não existe. Isso não existe. Não existe tiro na perna".

Registro e investigações

O boletim de ocorrência inicial afirmava que, após o suspeito não soltar a arma branca, os agentes o baleiam. O caso foi registrado no 74º DP (Parada de Taipas). A Polícia Civil informou que a arma dos oficiais e o facão foram recolhidos para perícia, e a ocorrência foi registrada como "resistência e morte decorrente de intervenção policial" no DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), que investiga o caso.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) declarou que o caso também é investigado por meio de Inquérito Policial Militar (IPM) no 18º BPM/M, com acompanhamento da Corregedoria. A pasta afirmou: "Os agentes estão afastados do serviço operacional por determinação judicial. A Polícia Militar não compactua com excessos e desvios de conduta por parte de seus agentes. Todas as imagens relacionadas à ocorrência, incluindo as captadas pelas câmeras corporais utilizadas pelos policiais, são rigorosamente analisadas para adoção das medidas cabíveis."

Perfil da vítima e críticas da família

Um familiar contou à reportagem que Igor trabalhava com pequenos reparos e manutenção. Diagnosticado com esquizofrenia aos 8 anos, fazia uso contínuo de medicação controlada. Tinha grande interesse e habilidade em serviços elétricos e morava com o pai, de quem cuidava devido à saúde comprometida. A família critica a condução da abordagem e aponta falhas, como a não utilização de arma de choque elétrico (taser). Também questiona a escassez de informações oficiais e a falta de versão do motociclista no boletim de ocorrência.

Manifestação da Ouvidoria

A Ouvidoria da Polícia manifestou "indignação" com a morte, em nota oficial. "Trata-se de mais uma vida perdida em circunstâncias que exigem rigorosa apuração, transparência e responsabilização", afirmou o órgão. Destacou a importância das câmeras corporais para o esclarecimento e defendeu a necessidade urgente de revisão das políticas de saúde mental destinadas aos profissionais da segurança pública. "A população não pode continuar pagando com vidas o preço do despreparo, do descontrole emocional ou da incapacidade de atuação compatível com os princípios que devem orientar a atividade policial", concluiu.