A Justiça do Trabalho condenou a Volkswagen do Brasil por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão em uma fazenda no Pará durante as décadas de 1970 e 1980. A decisão foi proferida em 11 de junho de 2026 por um juiz de Redenção (PA), município localizado a cerca de 200 km da propriedade. As informações são do jornal espanhol El País.
A sentença determina que a empresa pague R$ 2 milhões a cada um dos quatro ex-trabalhadores que ingressaram com a ação. Segundo o Coletivo Veredas, que representa as vítimas, é a maior indenização individual já determinada pela Justiça brasileira em um caso de trabalho forçado.
O caso envolve a fazenda da Volkswagen em Santana do Araguaia (PA), onde trabalhadores eram submetidos a um sistema de servidão por dívida. Eles eram atraídos por falsas promessas de emprego e ficavam presos a dívidas com a própria fazenda por alimentação, ferramentas e materiais de trabalho.
A Volkswagen argumentou que não tinha vínculo direto com os trabalhadores. O juiz, porém, rejeitou a tese e considerou que a empresa poderia ser responsabilizada pelas condições encontradas na propriedade.
Antes da condenação individual, a empresa já havia sido condenada em uma ação civil coletiva relacionada ao mesmo caso. A decisão determinou pagamento de R$ 165 milhões por danos morais coletivos. A Volkswagen recorreu.
Em nota, a Volkswagen do Brasil disse que não comenta processos judiciais em andamento e afirmou condenar “qualquer forma de trabalho forçoso, degradante ou análogo à escravidão”.
FAZENDA DA VOLKSWAGEN
A Volkswagen tornou-se acionista majoritária da fazenda em Santana do Araguaia durante a ditadura militar (1964-1985), em um projeto de ocupação da Amazônia incentivado pelo governo federal.
A propriedade tinha área superior à da cidade de Nova York. Para a abertura de pastagens, trabalhadores eram contratados com promessas de salários e melhores condições, mas acabavam presos a dívidas cobradas pela própria fazenda.
Segundo relatos ouvidos pela reportagem, os empregados recebiam valores descontados por alimentação, ferramentas e materiais de trabalho vendidos a preços elevados. A dívida aumentava e impedia a saída dos trabalhadores.
Os trabalhadores viviam em barracos, sob vigilância armada e em condições precárias. Alguns dos empregados conseguiram deixar a fazenda ao afirmar que precisavam cumprir o serviço militar obrigatório.