A Venezuela deve apresentar nas próximas semanas um retrato mais detalhado de suas finanças e revelar uma dívida acumulada de cerca de US$ 240 bilhões (cerca de R$ 1,3 trilhão), valor superior às estimativas feitas até agora por investidores, que calculavam um passivo entre US$ 150 bilhões (cerca de R$ 825 bilhões) e US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,1 trilhão).
O levantamento será o primeiro passo de uma reestruturação considerada a maior já feita por um país.
O objetivo do governo venezuelano é renegociar os débitos com credores e tentar recuperar o acesso aos mercados internacionais, após anos de isolamento financeiro durante o governo de Nicolás Maduro.
A dívida supera, em tamanho, a reestruturação da Grécia em 2012, quando o país europeu renegociou cerca de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,1 trilhão) durante a crise da zona do euro.
Economia encolheu e dívida supera duas vezes o tamanho do país
O governo interino da Venezuela prepara um novo diagnóstico econômico que deve mostrar uma economia muito menor do que no auge do chavismo.
Segundo informações do plano em elaboração, o Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano deve ser estimado em cerca de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 550 bilhões), contra aproximadamente US$ 370 bilhões (cerca de R$ 2 trilhões) em 2012, último ano completo antes do agravamento da crise econômica.
Continua após a publicidadeCom isso, a relação entre dívida e PIB deve ultrapassar 200%, um dos níveis mais altos entre países emergentes.
A análise servirá como base para a negociação com credores, que devem pressionar por descontos no valor dos títulos e das obrigações financeiras.
Dívida reúne títulos, petróleo, China e empresas afetadas por Chávez
O passivo venezuelano é considerado complexo porque envolve diferentes tipos de credores.
A maior parcela conhecida está nos títulos emitidos pelo governo e pela estatal petrolífera Petróleos de Venezuela (PDVSA). O valor principal gira em torno de US$ 60 bilhões (cerca de R$ 330 bilhões), além de aproximadamente US$ 40 bilhões (cerca de R$ 220 bilhões) em juros acumulados após o país deixar de pagar suas obrigações.
Continua após a publicidadeA Venezuela também acumula dívidas com empresas de petróleo e fornecedores, estimadas entre US$ 30 bilhões (cerca de R$ 165 bilhões) e US$ 50 bilhões (cerca de R$ 275 bilhões), além de indenizações judiciais a companhias que tiveram ativos nacionalizados durante os governos de Hugo Chávez.
Outros passivos incluem aproximadamente US$ 10 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões) a US$ 20 bilhões (cerca de R$ 110 bilhões) com a China, cerca de US$ 6 bilhões (cerca de R$ 33 bilhões) com a Rússia e aproximadamente US$ 4 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões) com bancos de desenvolvimento.
Petróleo será peça central da negociação
A recuperação da produção de petróleo será um dos principais fatores para determinar o sucesso do acordo.
A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, mas sua produção despencou após anos de falta de investimento, sanções internacionais e problemas de gestão na PDVSA.
Continua após a publicidadeCredores acompanham principalmente se o país conseguirá aumentar a exportação de petróleo e gerar receitas suficientes para pagar parte da dívida.
Dados recentes do Banco Central venezuelano mostram que as exportações de petróleo somaram US$ 5,5 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) nos primeiros três meses do ano, acima dos US$ 4,4 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões) registrados no fim do governo Maduro, mas ainda muito abaixo do período anterior à crise.
Governo tenta acelerar acordo fora do modelo tradicional do FMI
A Venezuela contratou o banco de investimento Centerview Partners como assessor financeiro para desenhar a reestruturação.
O plano deve seguir princípios semelhantes aos usados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), mas sem participação direta da instituição na elaboração do diagnóstico da dívida.
Continua após a publicidadeEssa decisão gera críticas entre parte da oposição e alguns investidores, que defendem uma negociação conduzida pelo FMI para garantir maior transparência sobre os números e as condições do acordo.
O fundo afirmou que não participa diretamente da reestruturação, embora mantenha diálogo com autoridades venezuelanas sobre dados econômicos.
Credores esperam uma negociação longa
Embora o governo queira fechar um acordo ainda neste ano, investidores avaliam que o processo pode se prolongar.
A variedade de credores, a falta de informações completas sobre a dívida e a necessidade de recuperar a produção de petróleo tornam a negociação uma das mais difíceis já realizadas.
Continua após a publicidade“A questão é se isso poderá ser concluído em 2026. Existe uma pequena chance, mas acredito que o processo deve avançar até 2027”, afirmou Jeff Grills, gestor da Aegon Asset Management.
A reestruturação será também um teste para a tentativa da Venezuela de reconstruir sua economia depois de mais de uma década de crise, hiperinflação, queda da produção de petróleo e perda de acesso ao sistema financeiro internacional.
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