Caracas — O governo venezuelano ativou nesta quarta-feira todo o seu aparato institucional de emergência após dois terremotos consecutivos — de magnitude 7,2 e 7,5, separados por apenas 39 segundos — atingirem o oeste do país, com epicentro no estado de Yaracuy.

A vice-presidente executiva e presidente em exercício, Delcy Rodríguez, declarou estado de emergência constitucional em pronunciamento nacional transmitido em cadeia de rádio e televisão a partir do Palácio de Miraflores, instalou um Estado-Maior de Emergência e nomeou uma autoridade única para coordenar a resposta. Quatorze países e organismos internacionais ofereceram assistência, e as primeiras equipes de resgate já atuam em território venezuelano.

O balanço oficial até o fechamento desta reportagem aponta 164 mortos, 971 feridos e 30 réplicas registradas pela Fundação Venezuelana de Investigações Sismológicas (Funvisis). O estado de La Guaira foi declarado zona de desastre.

Pronunciamento nacional

Delcy Rodríguez comandou a cadeia nacional de rádio e televisão às 21h30 da quarta-feira, dia 24, e voltou a falar durante a madrugada, após a instalação do Estado-Maior de Emergência. Nas duas intervenções, destacou três pilares da resposta governamental: continuidade institucional, comando unificado e prioridade absoluta ao salvamento de vidas.

“Mantenhamos a união para salvar vidas. O mais importante agora é resgatar vidas.”

A declaração de estado de emergência foi emitida com base no artigo 338 da Constituição venezuelana e autoriza o Executivo a mobilizar recursos extraordinários, coordenar de forma centralizada as ações de governos estaduais e municipais e suspender temporariamente atividades não essenciais. O Aeroporto Internacional de Maiquetía permanece fechado para voos comerciais, operando apenas para missões humanitárias. O Metrô de Caracas e o sistema ferroviário nacional também tiveram as atividades suspensas, enquanto as aulas em todo o país foram interrompidas por tempo indeterminado.

As frentes de emergência

O Estado-Maior instalado em Miraflores dividiu a resposta em quatro áreas estratégicas, cada uma sob responsabilidade de um dirigente com experiência na administração pública:

  • Diosdado Cabello — Política e Segurança: coordenação com a Força Armada Nacional Bolivariana, controle territorial das áreas afetadas e manutenção da ordem pública.
  • Pedro Rafael Ramírez — Serviços: restabelecimento do fornecimento de energia elétrica, água, telecomunicações e combustíveis.
  • Héctor Rodríguez — Área Social: gestão de abrigos, assistência humanitária, cadastro de desabrigados e articulação com programas sociais.
  • Calixto Ortega — Economia: mobilização de recursos, coordenação com o setor privado e elaboração do plano de reconstrução.

A autoridade máxima em campo será o major-general Domingo Hernández Lárez Sulbarán, da Guarda Nacional Bolivariana, encarregado de coordenar de forma centralizada todas as operações de busca, resgate e assistência humanitária. O modelo de comando único, sob liderança civil do Estado-Maior presidido pela presidente em exercício, segue o formato tradicional de gestão de catástrofes já utilizado anteriormente pelo governo venezuelano.

Cadastro de desaparecidos

O governo disponibilizou a plataforma VenApp como canal oficial para o registro de pessoas desaparecidas e para consultas de familiares. A medida busca centralizar informações, evitar a circulação de listas falsas nas redes sociais e garantir o acompanhamento de cada caso.

US$ 200 milhões com o FMI para reconstrução

Paralelamente às ações emergenciais, Caracas anunciou a criação de um fundo inicial de US$ 200 milhões, acordado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), destinado à primeira fase da reconstrução.

Os recursos serão utilizados para assistência humanitária imediata, recuperação de serviços essenciais e avaliação estrutural de moradias e infraestruturas críticas. Trata-se da primeira operação dessa magnitude envolvendo o FMI e a Venezuela em vários anos, inserida no processo de reaproximação entre Caracas e o sistema financeiro multilateral.

Cooperação internacional: 14 países e a ONU

A resposta internacional foi imediata. Ofereceram assistência formal os governos dos Estados Unidos, Panamá, Catar, Cuba, Nicarágua, Turquia, Jordânia, Barbados, Curaçao, Colômbia, Reino Unido, Brasil e México, além da Organização das Nações Unidas (ONU).

Delcy Rodríguez agradeceu publicamente o apoio recebido.

As primeiras equipes de resgate que chegaram à Venezuela vieram dos Estados Unidos, México, El Salvador, Catar e República Dominicana. Os grupos desembarcaram com cães farejadores, equipamentos de detecção de vítimas e especialistas em colapsos estruturais. A ajuda continua chegando por via aérea, através de Maiquetía, e por corredores terrestres a partir da Colômbia e do Brasil.

Yaracuy, o epicentro da tragédia

O primeiro terremoto foi registrado às 18h04 (horário local) da quarta-feira, 24 de junho, com magnitude 7,2 e epicentro na região entre Yumare e Morón, no estado de Yaracuy. Apenas 39 segundos depois, às 18h05, um segundo tremor de magnitude 7,5 atingiu a mesma área.

A sequência incomum — dois grandes terremotos em menos de um minuto — ampliou os danos estruturais e dificultou a resposta inicial dos serviços de emergência.

As áreas mais afetadas são os estados de Yaracuy, Carabobo, Falcón, La Guaira e a Região Metropolitana de Caracas. Até o momento, a Funvisis registrou 30 réplicas, várias delas com magnitude superior a 5.

Continuidade do Estado

A sequência de medidas adotadas nas últimas horas consolidou, tanto na opinião pública venezuelana quanto internacionalmente, a imagem de um Estado em funcionamento e capaz de coordenar a resposta à crise. O pronunciamento nacional, a instalação do Estado-Maior de Emergência, a nomeação de uma autoridade única, o acordo com o FMI e a articulação da ajuda internacional ocorreram em poucas horas, dentro de uma sequência institucional claramente definida.

Em meio à pior emergência natural enfrentada pelo país nos últimos anos, a liderança civil do governo, conduzida pela presidente em exercício Delcy Rodríguez, manteve a coordenação das ações sem interrupções.

A frase que encerrou o pronunciamento resume o tom adotado pela administração para as próximas semanas de resgate e reconstrução:

“Mantenhamos a união para salvar vidas. O mais importante agora é resgatar vidas.”