No fim de maio, representantes da Igreja Católica se ajoelharam diante de camponeses da comunidade San Juan Bautista de Catacaos, no noroeste do Peru, para pedir perdão pelo roubo de terras ocorrido há décadas. O gesto ocorreu durante uma missa celebrada pelo monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano para a dissolução do Sodalício de Vida Cristã, agrupamento ultraconservador suprimido pelo papa Francisco em abril de 2025 após investigações de abusos sexuais e corrupção.
Pedido de perdão e emoção na comunidade
"Estamos aqui para pedir perdão em nome da Igreja. Chegamos tarde, deveríamos ter chegado há 20 anos, e sentimos muito por isso", declarou Bertomeu na homilia, realizada a pedido da comunidade. O monsenhor afirmou à BBC Mundo que viveu um momento emocionante, sentindo um peso histórico: "Comovia estar ao lado de uma representação das autoridades eclesiais do Peru de joelhos diante daquele povo tão pobre, que nunca teve o apoio institucional de ninguém. Senti tristeza por ter chegado vinte anos tarde e, sobretudo, vergonha pelo que pessoas da Igreja às vezes fizeram e não quiseram assumir".

Membros da comunidade, segurando flores brancas, classificaram o ato como justiça. Percy Maza, que denuncia perseguição por defender sua terra, disse: "São anjos enviados por Deus para ouvir as vozes dos nossos camponeses, temos pedido aos gritos ajuda e justiça". Paula Sandoval, de 58 anos, mãe de Maza, afirmou: "Fizeram o que quiseram conosco porque somos pobres, somos do campo, não conhecemos as leis. Que os padres, desde tão longe, tenham vindo nos pedir perdão nos comoveu. Graças a Deus chegou a justiça divina".
Histórico da tomada de terras
Segundo camponeses, advogados e jornalistas, a suposta tomada das terras da comunidade San Juan Bautista remonta a 1998. Os direitos territoriais derivam de reconhecimentos comunitários da época do Vice-Reino do Peru e até pré-coloniais, como herdeiros do povo indígena Tallán. Em 18 de dezembro de 1998, uma transferência supostamente fraudulenta registrou a passagem de quase 10 mil hectares para 100 camponeses, mas os moradores afirmam desconhecer a assembleia que autorizou o ato. Ao verificar os registros, perceberam que várias pessoas listadas como participantes já estavam mortas ou negavam ter assinado.

Os terrenos foram posteriormente transferidos como aporte de capital à empresa Pampa Loma Vega, que os repassou a outras empresas, incluindo a Asociación Civil San Juan Bautista (ACSJB), ligada ao Sodalício de Vida Cristã. A ACSJB foi fundada por José Antonio Eguren, ex-arcebispo de Piura e líder histórico do Sodalício, expulso da organização por decisão do Vaticano. Eguren negou em 2024 envolvimento em tráfico de terras.
Reação da empresa e da Justiça
Após o pedido de desculpas, a ACSJB rejeitou as acusações. Em nota, o porta-voz Percy García Cavero afirmou que as aquisições foram realizadas em 2012 mediante compras de titulares legítimos nos Registros Públicos, dentro da legalidade, e que "vem sendo construída uma narrativa que busca atribuir responsabilidades à ACSJB sem respaldo jurídico". A empresa criticou declarações de Bertomeu.

A transferência de 1998 só teve impacto tangível quando desconhecidos começaram a instalar cercas nas terras, gerando confrontos. Nesse incidente, foi reportada a morte de Guadalupe Zapata Sosa, reconhecido pelo Vaticano como líder indígena falecido após se opor ao tráfico de terras do Sodalício. Ainda não há sentenças judiciais definitivas que comprovem a responsabilidade.
Revés judicial e próximos passos
Em maio de 2026, a Justiça peruana rejeitou uma ação de amparo constitucional movida pela comunidade para reaver os quase 10 mil hectares. O 5º Juizado Civil de Piura declarou a ação improcedente, e a 2ª Câmara Civil de Piura confirmou a decisão, argumentando tratar-se de controvérsia de relevância legal, não constitucional. O advogado Carlos Rodríguez afirma que a via civil não é alternativa, pois os crimes estariam prescritos. A defesa alega que a comunidade indígena tem proteção constitucional e do Convênio 169 da OIT.
A Comunidade San Juan Bautista foi recentemente incorporada à Base de Dados de Povos Indígenas do Ministério da Cultura do Peru. Agora, os camponeses planejam recorrer ao Tribunal Constitucional do país, embora não depositem muitas esperanças. A jornalista Paola Ugaz, que investigou o Sodalício, diz que "o poder comercial, econômico e político do Sodalício está mais vivo do que nunca". Bertomeu concordou que a Justiça peruana deve fazer mais, citando uma "grave crise institucional" que torna plausíveis as denúncias de vulnerabilidade das comunidades originárias.
Reparação e expectativas
O Vaticano prometeu reparação não apenas simbólica, mas também econômica. Bertomeu explicou que a liquidação dos ativos do Sodalício busca compensar as vítimas: "Com os bens do Sodalício, é preciso reparar suas vítimas, porque foram eles que causaram os danos". As famílias avaliam recorrer a organismos internacionais caso não obtenham veredito favorável. Enquanto isso, aguardam uma possível visita do papa Leão 14 ao Peru no final do ano.