O Vaticano divulgou no fim de maio a primeira encíclica do papa Leão XIV, intitulada Magnifica humanitas, que trata da defesa da dignidade humana em tempos de inteligência artificial. No terceiro capítulo, o papa dedica três parágrafos ao transumanismo e ao pós-humanismo, definindo-os como correntes que interpretam o progresso como uma superação do humano.

Segundo o texto, o transumanismo imagina um aperfeiçoamento do ser humano por meio de tecnologias como biomedicina, engenharia corporal e algoritmos, aspirando a aumentar seu desempenho e capacidades. Já o pós-humanismo, em suas versões radicais, critica o antropocentrismo e propõe uma hibridação entre ser humano, máquina e ambiente, chegando a imaginar uma transição para um novo estágio evolutivo.

O papa alerta que, embora essas hipóteses sejam especulativas, elas modificam o imaginário coletivo e orientam escolhas sociais, econômicas e políticas. O ponto crítico, segundo a Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão subjacente: se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou ultrapassar, torna-se mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis ou dignos.

O livro Transumanismo e a imagem de Deus, do teólogo Jacob Shatzer, complementa a análise papal. Shatzer define o transumanismo como o processo e o pós-humanismo como o objetivo, ambos baseados no potencial da tecnologia. Ele lista três áreas de atuação do transumanismo: a liberdade morfológica (alterações radicais no corpo), a realidade aumentada (conexão entre biológico e tecnológico) e a inteligência artificial com upload mental (transcendência do corpo biológico).

Shatzer argumenta que já estamos sendo “amaciados” para aceitar essas ideias por meio de avatares, tecnologias vestíveis, robôs de cuidado e o uso intensivo de mídias sociais. O autor aponta dois grandes problemas do transumanismo: a tentativa de “libertar” o ser humano do corpo, enquanto o cristianismo valoriza o corpo como templo do Espírito Santo; e a promoção de uma “liturgia do controle”, oposta à humildade proposta por Cristo.

A encíclica conclui que o futuro da humanidade não está na superação técnica dos limites, mas no acolhimento do amor divino que desce à história humana para regenerá-la. O papa cita a Encarnação como caminho alternativo: Deus assume a fraqueza humana e a transforma em lugar de salvação.

Com informações de Gazeta do Povo.