O mercado financeiro vive um vaivém de projeções para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para esta semana. As apostas estão divididas entre um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na taxa Selic, para 14,25% ao ano, e a manutenção dos juros em 14,5% ao ano. As probabilidades se alteraram nos últimos dias, refletindo a incerteza sobre o cenário inflacionário e os riscos externos.

Probabilidades em movimento

Segundo relatório do Goldman Sachs, o economista Alberto Ramos indicou que a projeção oficial do banco é de corte de 0,25 p.p., mas atribuiu 40% de probabilidade à hipótese de manutenção, considerando “o cenário inflacionário desafiador”. Essa chance é maior do que a apontada pelo mercado de derivativos da B3, que precifica 32% de probabilidade para a manutenção e 68% para o corte de 0,25 p.p.

A chance de manutenção atingiu um pico de 70% dias antes, mas perdeu força na quinta-feira (11). Os economistas que defendem a manutenção argumentam que a inflação — tanto a corrente quanto as expectativas futuras — piorou, em parte devido à guerra entre Estados Unidos e Irã, que pressiona os preços de commodities e a cadeia de suprimentos.

Inflação e riscos

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, divulgado na última sexta-feira, registrou inflação acumulada em 12 meses de 4,72%, acima do teto da meta de 4,5%. As expectativas futuras também se deterioraram, com projeções para o IPCA em 2027 e 2028 em alta.

Diante desse quadro, os agentes financeiros identificam três riscos principais que o Copom deve considerar: o impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo, a desancoragem das expectativas de inflação e a incerteza sobre a política fiscal. Esses fatores justificariam maior cautela na decisão.

Visões divergentes entre instituições

A XP Investimentos avalia que a interrupção do ciclo de cortes é pouco provável, pois os membros do Copom não alteraram a comunicação desde a reunião de maio e as condições de mercado melhoraram ligeiramente nos últimos dias. Já a Inter Asset defende a manutenção. Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, afirma que “o nível de deterioração da inflação, corrente e futura, exige essa postura mais cautelosa, dada a abertura dos indicadores em relação à meta de 3%”.

Para o Bank of America (BofA), o Copom deverá realizar mais um corte de 0,25 p.p. e depois encerrar o ciclo, mantendo a Selic em 14,25% no restante do ano. David Beker, economista-chefe do BofA para a América Latina, escreveu em relatório: “Embora os riscos estejam inclinados para alta, não vemos o BC subir os juros, já que as taxas reais (que descontam a inflação da Selic) continuam restritivas em 9,5%”. Ele espera que o comunicado do Copom retire a orientação sobre “calibração contínua”, barrando a ideia de cortes adicionais.

O Itaú descreve o momento como “delicado” para o Banco Central, apontando um trade-off entre avançar na flexibilização dos juros e o risco de deterioração adicional do ambiente inflacionário. O banco revisou sua projeção para a Selic em 2026 de 13,25% para 13,75%.

Perspectivas para a Selic terminal

As projeções para a taxa Selic ao final do ano divergem bastante: vão de 12,75% a 14,5%, dependendo da instituição. A maior parte dos economistas condiciona a “janela de cortes” à resolução da guerra no Oriente Médio. No último final de semana, Estados Unidos e Irã anunciaram um possível acordo de paz, ainda não oficializado. Na segunda-feira (15), bolsas e curvas de juros globais tiveram um dia de alívio, mas o mercado aguarda a confirmação do cumprimento das prerrogativas do acordo.

Seja qual for a decisão do Copom, o futuro da política monetária permanece incerto, e os investidores acompanham de perto o balancê do Banco Central.