Há um ano, em 15 de maio de 2025, os governos federal e estadual de São Paulo firmaram um acordo para garantir moradia digna e gratuita às mais de 800 famílias da favela do Moinho, no centro da capital paulista. No entanto, passados 12 meses, a maior parte das construções da comunidade foi demolida, e dezenas de famílias ainda aguardam a casa prometida, vivendo entre escombros, ratos e escorpiões, segundo relatos de moradores à Ponte Jornalismo.

Leidivânia Domingas, 31, moradora do Moinho desde 2014, é uma das últimas a permanecer no local. Ela conta que hoje só restam duas vizinhas. “Muitas casas foram demolidas e foram ficando os entulhos. Agora, estamos com medo de entrar escorpião em casa, como já aconteceu em muitas daqui, e teve até criança picada”, afirma. “À noite você vê rato demais, coisa que eu nunca vi na vida”, acrescenta. Ela mora com o marido, limpador de vidros, e dois filhos pequenos.

Apesar do esvaziamento, mais de 40% das 854 famílias cadastradas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) como aptas a receber moradia definitiva ainda não se mudaram. A maioria saiu do Moinho ao longo do último ano e vive em outros bairros ou cidades com auxílio-moradia de R$ 1,2 mil por mês. Um grupo menor permanece na comunidade.

Leidivânia diz que há quase oito meses deu entrada no contrato de um apartamento de dois quartos e 42 m² em Casa Verde, zona norte, mas aguarda liberação do pagamento pela Caixa Econômica Federal. “No começo, diziam que, se as documentações tivessem certas, em no máximo 15 dias já estaríamos na moradia, só que era tudo propaganda enganosa”, relata. A vizinha Reinara Gomes, 40, mãe de três meninas, enfrenta a mesma espera por um apartamento de 39 m² na Mooca, zona leste.

Em nota, a Caixa afirmou que, até 13 de maio, 124 famílias do Moinho vinculadas à linha de Compra Assistida do Minha Casa, Minha Vida já haviam assinado contratos e estavam aptas à mudança. A CDHU informou que 480 famílias já estão em moradias definitivas. Sobre as demolições, o governo estadual disse que a medida “garante a integridade da área, evitando reocupações, e a segurança para as famílias e trabalhadores que circulam pelo local”.

Moradoras relatam pressão de policiais e funcionários da CDHU para que aceitassem o auxílio-moradia e deixassem suas casas. Reinara afirma ter se negado porque as filhas estudam perto e é difícil encontrar lugar provisório para cinco pessoas com R$ 1,2 mil. Ela diz que funcionários da CDHU apresentaram um papel dando 30 dias para sair, mesmo sem confirmação da Caixa. “Me senti acuada”, conta.

Roberto Santos de Jesus, 45, conhecido como “Pirata”, mora há mais de 15 anos no Moinho, mas não foi cadastrado pela CDHU. Após a morte do irmão gêmeo, que recebia auxílio-moradia, o benefício foi cortado e a casa onde viviam foi demolida. Ele tenta há meses transferir o cadastro para seu nome, mas recebe negativas. “Eu só saio daqui sem uma casa morto”, afirma.

Roberto Pereira de Paula, 77, um dos primeiros moradores, há mais de três décadas, sobrevive de bicos e ajuda de vizinhos. Com a saída da maioria, diz: “Ficou tudo estranho e sem graça aqui, sumiram as pessoas, e a gente sobrou, deixou de ser importante”. Ele ainda não sabe para onde irá.

Leidivânia e Reinara destacam a perda da rede de apoio da comunidade. “Antes, aqui era um morador protegendo o outro. Você podia sair e deixar sua porta aberta que ninguém entrava”, lembra Leidivânia. “O medo era mais da polícia fazer alguma coisa do que de qualquer morador.”

Com informações de Ponte Jornalismo.