A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) iniciou o recrutamento de voluntários para um estudo clínico de fase 2 que testa o uso de uma substância psicodélica no tratamento da depressão. Diferentemente da maioria das pesquisas no país, o ensaio tem caráter multicêntrico e será realizado em cinco capitais brasileiras.

Coordenado pelo psiquiatra Marcelo Falchi, pesquisador do Instituto do Cérebro (ICe-UFRN) e professor de saúde mental da universidade, o estudo busca inicialmente de 40 a 60 pessoas com depressão na região de Natal (RN). Em breve, também serão abertas inscrições em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza.

Os candidatos devem responder a um questionário online para que especialistas avaliem se atendem aos critérios de inclusão. É necessário apresentar quadro depressivo entre moderado e grave, com resposta insuficiente ao tratamento habitual, como antidepressivos da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), a exemplo de escitalopram e fluoxetina.

Para garantir a segurança dos voluntários, são critérios de exclusão: histórico pessoal de psicose, transtorno bipolar, uso problemático recente de substâncias, condições cardiovasculares instáveis, epilepsia, doença neurológica grave ou pulmonar, além de gestação e lactação.

“Nosso objetivo é construir um modelo de medicina psicodélica que seja eficaz, seguro e acessível, com potencial de futura incorporação ao SUS”, afirmou Falchi. O médico já participou de testes menores contra depressão realizados nos últimos anos em parceria entre o ICe e o Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol-UFRN) com a substância N,N-dimetiltriptamina (DMT), composto psicodélico presente na ayahuasca e na jurema-preta (Mimosa tenuiflora), uma planta da caatinga.

O grupo liderado por Dráulio de Araújo, Fernanda Palhano-Fontes e Nicole Galvão-Coelho conduziu ensaios pioneiros com ayahuasca para depressão, em sistema duplo-cego com grupo de controle por placebo. Como o efeito da bebida amazônica dura várias horas e exige monitoramento constante, os pesquisadores buscaram uma alternativa mais prática e barata para eventual uso clínico.

Os estudos evoluíram para o uso de DMT pura por inalação, que reduz o efeito agudo (a “viagem” psicodélica) para 10 a 15 minutos. Experimentos nos últimos quatro anos comprovaram o efeito antidepressivo sustentado desse método, conforme artigo publicado há pouco mais de um ano no periódico Neuropsychopharmacology.

No protocolo, o paciente recebe duas doses no mesmo dia: a primeira de 15 miligramas (mg), seguida de uma mais forte, de 60 mg. A sala do experimento no Huol foi especialmente decorada e preparada, com poltrona reclinável. A pessoa utiliza fones de ouvido para escutar uma playlist composta pelo multiartista Raphael Egel.

Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.