Em entrevista ao Fórum Onze e Meia desta segunda-feira (22), o jornalista e autor dos livros “Latifúndio Midiota” e “Bolívia nas Ruas e Urnas Contra o Imperialismo”, Leonardo Severo, analisou as eleições na Colômbia que, até o momento da apuração não-oficial, indicam o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella como o novo presidente do país.
Severo destacou que a postura do candidato extremista mostra que ele não tem nenhum tipo de ética ou censura ao fazer declarações autoritárias, como afirmar que não terá adversários no Congresso Nacional da Colômbia, mas sim “inimigos”.
“Ele tem quatro filhos norte-americanos e recorreu à nacionalidade norte-americana. Ele defendeu abertamente narcotraficantes, defendeu abertamente estafadores, defendeu abertamente estupradores […] Então, é um cara que não tem limites nem para vender o país, nem para agir em relação ao adversário tratando como inimigo. Acho que a gravidade está aí”, destaca o jornalista, que está na Colômbia neste momento aguardando a apuração oficial.
Severo compara de la Espriella com presidentes extremistas Javier Milei, da Argentina, Daniel Noboa, do Equador, Nayib Bukele, de El Salvador e Donald Trump dos Estados Unidos.
“Tenta pensar num cara que é uma mistura, um tipo de um Frankenstein, que junta Milei, Noboa, Bukele e Trump. É uma coisa”, afirma o jornalista.
O que deve acontecer na Colômbia após a eleição
Severo também analisa o que deve acontecer na Colômbia caso a apuração oficial confirme a vitória de Abelardo de la Espriella e destaca o retrocesso que o país deve sofrer com esse novo cenário.
O jornalista destaca que a Colômbia nunca teve uma reforma agrária e que foi durante o governo de Gustavo Petro que tentou avançar com a medida, que foi bloqueada devido à uma “justiça totalmente vinculada aos interesses dos grandes latifundiários”.
“Essa justiça que impediu, na prática, que as reformas ocorressem. Houve a reforma trabalhista com suas limitações, houve medidas de avanço social, só que outras várias reformas, como por exemplo, a reforma do Estado, que era para garantir o pagamento de impostos para que a máquina pública pudesse funcionar, foi impedida pela estrutura jurídica”, afirma Severo.
Portanto, o jornalista diz que, caso não haja a vitória presidencial de Iván Cepeda, candidato de Gustavo Petro, será preciso uma grande mobilização popular para garantir esses avanços “que estão sendo minados pela estrutura jurídica”. Severo ainda acrescenta que a Colômbia tem um histórico de “construção de consensos” que busquem um acordo nacional.
“O próprio Petro fala nisso. O país está dividido, isso é irreconhecível, então, para construir a paz, vamos precisar construir um acordo nacional. Um acordo nacional significa, justamente, preservar direitos, preservar conquistas e pensar o futuro”, afirma Severo.
Onde Petro errou?
Severo também foi questionado onde o ex-presidente Gustavo Petro pode ter errado, já que as apurações mostram uma disputa acirrada entre os dois candidatos. No entanto, o jornalista não acredita em um erro cometido pelo ex-presidente, uma vez que foi um governo “extremamente popular”. Severo afirma que um dos principais fatores para o resultado dessa eleição é a falta de “uma estrutura comunicacional que conseguisse mobilizar o conjunto das pessoas para que haja uma tomada de consciência”.
“Eu acho que ele avançou muito em inúmeros aspectos, só que ele ficou amarrado em determinados pontos da legislação. Olha o absurdo, aqui o Petro não podia levantar a mão do Cepeda porque seria uma ingerência do poder público na eleição presidencial. Só que o Trump podia dar declaração, podia ameaçar, dizer que ia cortar o espaço para os colombianos que morassem lá, que o Noboa sobretaxou os produtos colombianos. Então, isso prejudicou muito. Eles fizeram de todas as formas, a ultradireita se organizou para fazer uma solidariedade contra a Colômbia. O Petro reagiu, na minha opinião, até onde um país sozinho pode reagir”, analisou Severo.
Portanto, o jornalista afirma que se a esquerda fosse procurar erros, deveria procurar mais em relação a si. “Acho que é preciso mais solidariedade internacional entre os movimentos sociais e progressistas. Acho que nós tínhamos que estar mais presentes aqui [na Colômbia]. Acho que nós tínhamos que denunciar mais os absurdos que estão sendo feitos e construir uma consciência crítica. É a velha história, pensar com a própria cabeça para caminhar com os próprios pés”, diz o jornalista.