O Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (25) recebeu a cineasta e diretora Dandara Ferreira para contar sobre a produção do seu novo filme, “Anatomia do Caos”, que mostra os bastidores da CPI da Covid-19, realizada em 2021, quando o Brasil passava pela sua maior crise sanitária. Para Dandara, o documentário é sobre “memória e justiça”, porque além de relembrar um dos períodos mais difíceis do país, também escancara a negligência do governo de Jair Bolsonaro (PL).

“É um filme que fala sobre memória e justiça. Memória porque traz um passado que não é um passado tão longo, é o nosso passado recente, mas que a gente esquece. Eu acho que tem uma coisa também da gente esquecer porque a pandemia foi meio que um luto coletivo. Então, é difícil às vezes a gente relembrar do que a gente viveu naquele período. Acho que inconscientemente a gente tenta esquecer, até para poder a vida ficar um pouco mais leve”, afirma Dandara.

A cineasta destaca que, ao mesmo tempo, é um filme que fala sobre justiça porque não é leve. A produção traz um sentimento de revolta, de acordo com Dandara. “A gente fica com esse sentimento de revolta porque, analisando, várias pessoas ali foram indiciadas, e a gente vai vendo, quando você coloca num filme, o que esses personagens fizeram”, diz a diretora.

“Inclusive o Flávio Bolsonaro, que gosta de se colocar como um Bolsonaro que foi a favor da vacina. Quando você assiste o filme, você vê que também não é bem assim. Tem uma das perguntas ali, quando os jornalistas fazem no final como que o pai dele vai encarar o relatório, ele dá uma risada totalmente debochada”, relembra Dandara.

Portanto, a diretora destaca que o filme traz esses dois sentimentos porque as questões tratadas na produção ainda não foram resolvidas, mesmo após 6 anos.

“Ainda são questões que precisam ser resolvidas. Bolsonaro agora, recentemente, foi preso, mas ele não foi preso pelas atitudes que ele fez durante a pandemia, que acho que são muito maiores do que a questão de 8 de Janeiro. Então, é isso. Acho que fica esse sentimento de justiça mesmo”, finaliza Dandara.

Como surgiu a ideia do filme

A diretora também conta como foi que surgiu a ideia de fazer o filme, ainda em 2021, quando o Brasil vivia o ápice da pandemia. “Comecei a pensar em fazer algo ainda quando o número de mortes só crescia. Isso ali em 2021. Logo depois do caos que aconteceu em Manaus no começo de janeiro”, diz.

“Eu senti que o cinema poderia dar voz ao povo brasileiro. Estávamos todos sendo violentados de uma maneira cruel e não podíamos aceitar a banalização nem naturalizar a crueldade. E meu instrumento, naquele momento, era uma câmera”, afirma Dandara.

Ela volta a ressaltar o sentimento de revolta que não pertencia só a ela, mas a quase toda a população brasileira que assistia o noticiário falando sobre milhares de mortes por dia enquanto o presidente do país debochava da situação.

“Achei que deveria fazer alguma coisa. Acho que também tinha um sentimento de revolta, não só comigo, mas acho que todos os brasileiros do que estávamos vivendo. E aí decidi, quando o Congresso aprovou a CPI, que tinha que registrar. Sabia que por ali ia passar muita informação. Tinha uma investigação de curso”, relembra a diretora.

Dificuldades

Em relação às dificuldades que passou durante o período de gravação, além da questão da quarentena e do distanciamento social, Dandara afirma que foi muito difícil, no começo, conseguir ter acesso à CPI.

Eu demorei para ter acesso. Eu fui começando a ter acesso no decorrer, porque acho que fui criando uma relação de confiança. Eu estava meio que no dia a dia. Fui criando uma relação com o G7, porque, no começo, eu também não tinha muito acesso a eles. Não só estou falando da comissão, mas fora dali, no gabinete”, conta a diretora.

Ela afirma que os parlamentare de direita e apoiadores de Bolsonaro só descobriram a sua presença no final das gravações. “Eu tomei um susto que lá nos últimos dias da CPI, um assessor virou para mim e sabia meu nome e sobrenome, e veio perguntar do filme. Eu quase tomei um susto, porque eu estava ali meio invisível, até para poder ter mais acesso, para poder filmar mais coisas, porque, talvez, se eles soubessem da minha presença ali, ia dificultar”, acrescenta Dandara.

Familiares das vítimas

Dandara também falou sobre como foi a relação com os familiares das vítimas da Covid e esclareceu que esse não foi o foco do seu documentário, mas que eles estão presentes nos relatos feitos à CPI. A diretora afirma que a sua ideia, desde o início, era gravar a CPI como se fosse um reality e trazer um “cinema mais vivo”.

“Eu não fui muito além, mas, claro, eu tive acesso dos familiares no dia que eles foram depor na CPI. É duro você ouvir aquelas coisas, ainda mais aquele pai que perdeu o filho. Toda vez que eu vejo aquela cena, aquilo me toca. Ainda mais pensando que a gente tinha um presidente que debochava das pessoas que estavam com falta de ar”, diz.

“Eu cheguei a filmá-los durante a CPI, mas, ao mesmo tempo, com muito cuidado também para ser respeitosa também com a dor deles também. Então, eu não fui muito por esse caminho”, explica.

Confira a entrevista completa da diretora Dandara Ferreira