O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio ao candidato ultradireitista Abelardo de la Espriella, que disputa o segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia em 21 de junho. Trump afirmou que o resultado será “muito importante para o futuro do relacionamento” entre os dois países.
Antes do pleito colombiano, o Peru realiza eleição presidencial neste domingo (7). O Haiti, por sua vez, agendou eleições para agosto após anos de atrasos devido à violência de gangues e crise institucional. Trump também compartilhou nas redes sociais fotos de um encontro com o senador Flávio Bolsonaro, que busca derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, horas depois de o governo americano anunciar planos de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Intervenções explícitas
Desde o início do segundo mandato, Trump tem dado atenção renovada à América Latina, com intervenções eleitorais explícitas, como na Argentina e em Honduras. Em Honduras, ele ameaçou não trabalhar com o novo presidente se Nasry Asfura não vencesse; na Argentina, condicionou ajuda econômica à vitória do partido do presidente Javier Milei. Em ambos os casos, obteve o resultado desejado.
O especialista em relações internacionais Abelardo Rodríguez Sumano, pesquisador da Universidade Ibero-Americana (México), afirmou: “Trump está focado em se posicionar como o líder de todo o Hemisfério Ocidental. Ele não aceita confrontos políticos ou ideológicos abertos e busca alinhamento total.”
Segundo Farid Kahhat, professor da Universidade Católica do Peru, “Trump está basicamente extorquindo eleitores”. Ele citou o caso de Honduras como “extorsão flagrante”, devido ao impacto potencial nas remessas, um componente essencial da economia local. No entanto, Kahhat alertou que a intervenção de Trump “às vezes tem sido totalmente contraproducente para as forças políticas aliadas”, como no Canadá e na Austrália.
Reações na região
Analistas consideravam altamente provável o envolvimento explícito na Colômbia e no Brasil, ambos governados por líderes de esquerda com os quais Trump teve tensões. No Peru, a política externa não foi tema central, mas o país está envolvido na disputa geopolítica entre EUA e China.
Sandra Borda, professora associada da Universidade dos Andes (Bogotá), afirmou que intervenções muito fortes podem “empurrar o eleitorado na direção oposta” e “vitimizar a esquerda pode fortalecê-la eleitoralmente”. Kahhat reiterou que não está claro se a intervenção de Trump é promissora para candidatos alinhados a ele, especialmente diante de ameaças a aliados da Otan.
Para o Brasil, a situação é diferente: geograficamente mais distante e maior economia da região, tem maior capacidade de enfrentar a pressão de Washington, em coordenação com outras potências do BRICS. Rodríguez afirmou que Trump já declarou abertamente apoio a Bolsonaro e apoiará a candidatura que busca derrubar o Partido dos Trabalhadores.
Pêndulo eleitoral e segurança
A região chega a 2026 com sinais de fadiga dos ciclos entre esquerda e direita. Kahhat observou que, desde 2019, a América Latina enfrentou a maior pandemia em um século, a maior recessão desde a Grande Depressão e a maior inflação em meio século, além de aumento na taxa de homicídios. O partido no poder quase nunca é reeleito.
O aumento da atividade do crime organizado tem alimentado propostas linha-dura, com o “modelo Bukele” de El Salvador como referência. Na Colômbia, De la Espriella baseou sua campanha em promessas de mão firme; no Peru, a candidata de direita Keiko Fujimori promete “ordem”. Kahhat afirmou que penas mais severas não resolvem o problema da criminalidade, mas ajudam a angariar apoio eleitoral.
Borda destacou que a insegurança não é um problema à parte das questões econômicas e sociais, e a ausência de políticas redistributivas alimenta o crime organizado. Rodríguez acrescentou que, independentemente das políticas redistributivas, se não houver reflexo no bolso das pessoas, o aumento da criminalidade terá consequências, abrindo espaço para líderes fortes, mesmo que se oponham aos direitos humanos.
Crise de legitimidade
Em vários países, a rejeição às elites tradicionais aumentou, levando à fragmentação partidária. Na Colômbia e no Peru, houve erosão completa do sistema partidário. No primeiro turno colombiano, candidatos centristas e o partido de direita Centro Democrático colapsaram, com quase 85% dos votos indo para Cepeda e De la Espriella.
No Peru, em quatro eleições consecutivas, o partido no poder não apresentou candidato à presidência na eleição seguinte. Entre 35 candidatos no primeiro turno, nenhum alcançou 20%. Borda lamentou que não há candidatos que representem inspiração, apenas votos para evitar cenários adversos.
Rodríguez concluiu: “Uma vez que os Estados Unidos definiram o continente como sua esfera de influência, os governos da América Latina estão se adaptando a isso.”
Com informações de CNN Brasil.