O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou ter chamado o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de 'completamente louco' durante uma ligação telefônica na segunda-feira (1º de junho). A informação foi divulgada pelo portal Axios e confirmada por Trump em entrevista ao podcast Pod Force One na quarta-feira (3 de junho).

Segundo Trump, a irritação foi motivada pelas ações militares israelenses no Líbano, que colocaram em risco as conversas entre EUA e Irã para encerrar o conflito. 'Não diria que estava irritado. Estava um pouco incomodado com seu constante conflito com o Líbano', afirmou Trump, acrescentando que gosta muito de Netanyahu e trabalha bem com ele.

O Irã ameaçou suspender as negociações com os EUA após os ataques de Israel contra o Líbano, o que representa um revés para os esforços de Trump de se desvincular do conflito no Oriente Médio. Em jogo está um acordo que ampliaria o cessar-fogo entre EUA e Irã e abriria caminho para conversas sobre o programa nuclear iraniano, além da reabertura do estreito de Ormuz, vital para o transporte global de combustível.

Netanyahu minimizou o incidente em entrevista à CNBC na quarta-feira, classificando-o como um 'desacordo tático' comum entre aliados. 'Às vezes temos — como acontece nas melhores famílias — esse tipo de desacordo tático. Sempre encontramos uma maneira de resolvê-los, e o fazemos como grandes amigos', declarou.

Especialistas, no entanto, veem a ligação como sinal de frustração na Casa Branca com a divergência de objetivos militares e políticos entre os dois países, quase 100 dias após ambos terem lançado ataques contra alvos no Irã. 'Netanyahu tem um longo histórico de agir em seu próprio ritmo, independentemente do que tenha ouvido de Washington', disse à BBC Brett Bruen, ex-diplomata e presidente da Global Situation Room.

Embora concordem com o objetivo central de impedir que o Irã produza armas nucleares, os interesses divergem no Líbano, onde Israel prometeu atacar o Hezbollah mesmo durante as conversas entre EUA e Irã. Teerã insiste que qualquer cessar-fogo deve incluir também o Líbano.

O episódio ocorre em meio ao aumento da crítica interna nos EUA ao apoio a Israel. Pesquisa do Pew Research Center de abril mostrou que 60% dos americanos têm visão negativa de Israel, ante 42% antes da guerra com o Hamas em 2023. Figuras conservadoras, como Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, criticaram a suposta influência de Israel na decisão de Trump de entrar em guerra contra o Irã, o que ambos negam.

Analistas apontam que Trump pode ter incentivo político para se distanciar de Netanyahu. 'Acho que agora existe uma necessidade política de marcar distância entre Israel e Estados Unidos', afirmou Brett Bruen. 'Seja no Líbano ou em Gaza, há ações que Netanyahu decidiu empreender que são politicamente problemáticas, mesmo para Trump ou para os republicanos.'

Netanyahu tem histórico de atritos com presidentes americanos, incluindo Bill Clinton sobre os Acordos de Paz de Oslo e Barack Obama após discurso no Congresso em 2015. Com Joe Biden, a relação se deteriorou após acusações de retenção de armas. 'Ele manteve relações extremamente tensas com os presidentes americanos', disse Natan Sacks, do Instituto do Oriente Médio. 'É um negociador muito difícil; não apenas por ser duro, mas também por ser muito desconfiado.'

Apesar do incidente, a relação entre Trump e Netanyahu tem sido majoritariamente positiva, com Netanyahu descrevendo Trump como o 'melhor amigo de Israel' na história dos EUA. Não está claro se o desacordo recente alterará essa dinâmica. 'Pode ser algo significativo. Não sabemos se foi um incidente isolado ou o prenúncio de acontecimentos de maior dimensão', ponderou Sacks.

Com informações de BBC News Brasil.