Três irmãs centenárias chamam a atenção da ciência por sua longevidade acima da média: Levita de Deus Nunes, de 109 anos, Zoraide de Deus Mota, de 104, e Zulina de Deus Nunes, de 103, foram reconhecidas pelo Guinness World Records como o trio de irmãs vivas mais velho do mundo e agora são alvo de uma pesquisa para descobrir os motivos de sua longevidade.

O Projeto DNA Longevo, coordenado pela geneticista Mayana Zatz, professora da Universidade de São Paulo (USP), tem estudado as três irmãs, moradoras do Rio de Janeiro e naturais de Sergipe, para entender quais são os fatores genéticos capazes de conferir ao organismo maior resiliência contra os efeitos do envelhecimento.

As três nasceram em Sergipe, entre 1917 e 1923, em uma família grande, composta por oito irmãos.

Ao longo da vida, além dos fatores hereditários, outros aspectos devem ter influenciado sua predisposição a atingir a marca dos cem anos, e é isso que os pesquisadores pretendem entender.

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As três irmãs centenárias Levita de Deus Nunes, de 109 anos, Zoraide de Deus Mota, de 104, e Zulina de Deus Nunes, de 103. Créditos: Reuters/ reprodução

Um desses aspectos pode ser o estreito laço familiar, que favorece a integração social e o senso de comunidade, fatores diretamente associados a um envelhecimento saudável.

O Projeto DNA Longevo quer entender, acima de tudo, o que é capaz de manter idosos fisicamente ativos e cognitivamente saudáveis mesmo nas idades mais avançadas, entre os 90 e os 100 anos, assim como as variantes genéticas associadas a essa condição.

Os genes protetores, aqueles que ajudam o organismo a resistir a doenças ligadas ao envelhecimento, são muito importantes para a equipe, que pretende investigá-los em mais de 500 centenários a fim de chegar a conclusões estatísticas robustas.

Um fator importante a ser levado em conta é que a genética familiar importa: estudos com famílias de centenários mostram que filhos e irmãos dessas pessoas apresentam maior probabilidade de envelhecer com menos doenças cardiovasculares, menor fragilidade física e menor incidência de algumas enfermidades associadas ao envelhecimento.

Segundo a ciência, indivíduos longevos costumam combinar características genéticas ligadas à redução de processos inflamatórios e à boa função imunológica, principalmente na proteção do sistema cardiovascular.

Os genes protetores são aqueles que evitam o desgaste celular acelerado. As três irmãs recordistas relembram uma vida marcada por atividades ao ar livre, consumo de produtos frescos produzidos localmente e trabalhos manuais.

Zoraide, a irmã do meio, foi professora e enfermeira, mãe de cinco filhos, enquanto Zulina, a mais nova, teve seis filhos e trabalhou com bordado.

Outras atividades também são mentalmente estimulantes, como a conversa constante entre familiares e o hobby de jogar caça-palavras. Segundo as irmãs, a mãe também viveu até os 100 anos.

Segundo dados do IBGE, a população centenária no Brasil registrou um aumento expressivo ao longo da última década, de cerca de 66,7%. Hoje, são cerca de 37,8 mil pessoas com 100 anos de idade ou mais. A maioria é composta por mulheres (72% do total, o equivalente a 27.244 pessoas).

Apesar de indicadores sociais inferiores aos do Sudeste, são os estados das regiões Norte e Nordeste que lideram as estatísticas de longevidade quando considerados proporcionalmente ao número de habitantes.

Em números absolutos, a Bahia aparece em primeiro lugar, com 5.336 centenários; em seguida vêm São Paulo (5.095) e Minas Gerais (4.104).

Embora o número de centenários tenha aumentado, eles ainda representam apenas 0,018% da população brasileira, cuja expectativa de vida se aproxima de 73,3 anos para os homens e de 79,9 anos para as mulheres.

O projeto da USP, intitulado “Longevidade Saudável: quais são os segredos?”, quer caracterizar “os perfis genômicos, moleculares e celulares de idosos brasileiros que envelheceram de forma saudável até os 90, 100 anos ou mais” a fim de compará-los aos de indivíduos na mesma faixa etária ou mais jovens com declínio cognitivo, doenças crônicas e outras fragilidades de saúde.

A intenção é identificar as diferenças entre eles para “desvendar como funciona a sua resiliência contra as adversidades do tempo”.

“A expectativa é identificar variantes genéticas e epigenéticas raras ou mecanismos biológicos que conferem resiliência, impulsionando a medicina de precisão e o desenvolvimento de estratégias que promovam uma vida mais longa e com melhor qualidade para todos”, afirma o projeto, ligado ao Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo, com apoio da FAPESP.