A Polícia Civil de Roraima divulgou detalhes da expansão da facção venezuelana Tren de Aragua no Brasil, que ocorre desde 2018. Uma investigação apontou esquemas de lavagem de dinheiro com criptomoedas e tráfico de armas, abastecendo o Comando Vermelho, especialmente no Rio de Janeiro. As informações foram apresentadas após a Operação Rota do Norte, deflagrada na terça-feira (16).

Crescimento da facção desde 2018

As investigações tiveram início em 2024, mas os primeiros indícios da atuação do Tren de Aragua remontam aos anos de 2018 e 2019, quando migrantes criminosos vinculados a facções venezuelanas começaram a atuar em Roraima. A crise migratória da Venezuela em 2018 alterou a dinâmica criminal no estado, com aumento de homicídios por arma de fogo e tráfico de entorpecentes, crimes antes menos frequentes. A Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) aprofundou as apurações a partir de crimes locais, como homicídios e tráfico de drogas.

Lavagem de dinheiro com criptomoedas

Um dos pontos centrais da investigação é o uso de criptoativos para lavagem de dinheiro. Um homem apontado como principal operador financeiro da facção foi preso no Rio de Janeiro, suspeito de movimentar mais de R$ 300 milhões em criptomoedas apenas no último ano. Apesar do alto valor, o esquema não é considerado sofisticado por investigadores, que destacam o uso de empresas de fachada e laranjas. Autoridades do Ministério da Justiça e Segurança Pública veem a necessidade de melhora no ecossistema regulatório do setor e maior bloqueio de ativos.

Fornecimento de armas ao Comando Vermelho

Outro braço da investigação revelou o fornecimento de armamento pesado ao Comando Vermelho, principalmente para comunidades do Rio de Janeiro e do Amazonas. Integrantes do Tren de Aragua utilizavam Roraima como corredor estratégico para movimentar armas da Venezuela, Colômbia e Estados Unidos. Um dos alvos da operação foi justamente os mercadores de armas. Uma fonte de inteligência afirmou:

“O Rio de Janeiro só é o que é hoje por conta dos fuzis. E o Tren de Aragua é um dos fornecedores.”

Operação Rota do Norte

Considerada uma das maiores ações integradas contra o crime organizado transnacional, a Operação Rota do Norte foi coordenada pela Polícia Civil de Roraima em seis estados: Roraima, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. A Justiça expediu 25 mandados de prisão preventiva, sendo 18 contra venezuelanos e 7 contra brasileiros. Até o momento, 13 mandados foram cumpridos: seis em Roraima, cinco no Amazonas, um no Rio de Janeiro e um no Paraná. Equipes seguem em diligências para localizar os demais investigados.

Além das prisões, foram cumpridos 30 mandados de busca e apreensão em imóveis residenciais, estabelecimentos comerciais e endereços vinculados aos investigados e às empresas usadas para movimentação e ocultação de recursos ilícitos. Durante a operação, ocorreram duas prisões em flagrante: uma em São Paulo por tráfico de drogas e outra em Manaus (AM) por posse ilegal de arma de fogo e munições.

Resultados da operação

As apreensões totalizaram:

  • R$ 76.725 em espécie, US$ 48.285 e € 35 – cerca de R$ 350 mil
  • 11 veículos, incluindo carros de luxo
  • 17 aparelhos celulares e 3 máquinas de contar dinheiro
  • Drogas: ecstasy, metanfetamina, maconha, cocaína e loló
  • Uma pistola calibre .380 e munições de calibres 7.62, 5.56, 9 mm e .380

Entre os presos está o principal operador financeiro da facção, localizado no Rio de Janeiro, que exercia papel estratégico na movimentação e gerenciamento dos recursos.

Atuação limitada e próximos passos

Segundo a apuração, não há indícios de que o Tren de Aragua esteja inserido no mercado formal brasileiro, opere esquema nacional de tráfico de drogas ou esteja envolvido com outras grandes facções, como o PCC. Autoridades afirmam que, por ser a primeira operação e devido a recentes investimentos em tecnologia e inteligência no Programa Brasil contra o Crime Organizado, novas operações nacionais contra organizações criminosas devem ocorrer nos próximos meses.

A operação contou com apoio da Rede Nacional de Unidades Especializadas de Enfrentamento das Organizações Criminosas (RENORCRIM), do Ministério da Justiça e Segurança Pública e de unidades especializadas das Polícias Civis participantes. A empresa americana Chainalysis, especialista em inteligência em blockchain, foi fundamental para rastrear, recuperar e congelar ativos virtuais.