No fim de 2024, uma senhora com artrose crônica recorreu a um sistema de inteligência artificial para tentar convencê-lo de que a única forma de aliviar suas dores seria substituir os remédios tradicionais por drogas mais fortes. Na verdade, era um disfarce criado por um homem contratado para impedir que a IA atendesse ao pedido.

Ele trabalha como anotador em uma plataforma que presta serviços para grandes empresas no desenvolvimento dessas tecnologias. A missão era testar a IA e refinar sua capacidade de interação, corrigindo falhas de programação e garantindo o cumprimento de diretrizes que impedem as máquinas de abordar assuntos sensíveis.

“A ideia era que eu incentivasse a IA a falar sobre temas como abuso de drogas, cyberbullying, automutilação e extremismo político”, conta o anotador, que aceitou conversar sobre a experiência com a condição de não ser identificado. “A lista de assuntos era bem grande.”

Nesse período, ele chegou a trabalhar dez horas por dia na frente do computador, ganhando US$ 10 por hora (cerca de R$ 50). Após a conclusão do projeto em que se disfarçou como a senhora com artrose, ele passou a realizar tarefas mais simples, como checar respostas da IA e corrigir conceitos.

Mercado de anotadores

O mercado de anotadores é formado por especialistas de várias áreas, incluindo engenheiros, médicos e linguistas. Plataformas como a Outlier, da empresa americana Scale AI, recrutam a mão de obra e executam as tarefas contratadas por empresas que desenvolvem modelos de IA, como o ChatGPT, da OpenAI.

Os profissionais são atraídos pela promessa de ganhos de até US$ 100 por hora e passam por uma entrevista de emprego conduzida por uma IA. Os aprovados assinam termos de confidencialidade e acessam o site onde as tarefas são executadas.

O jornalista Pedro Pequeno, 27, faturou R$ 86 mil com esse trabalho no ano passado e deixou o emprego como assessor do Tribunal de Justiça de Pernambuco para se dedicar exclusivamente à função. Logo após pedir demissão, porém, parou de receber tarefas e ficou seis meses sem trabalho e sem renda.

A instabilidade é uma marca desse mercado, segundo outros profissionais consultados. Empresas como Google, Microsoft, Meta e OpenAI, todas clientes da Scale, contratam as plataformas de treinamento apenas para projetos pontuais, como aprimorar o vocabulário médico em português ou a precisão de cálculos de engenharia civil. Quando não há projetos, não há remuneração.

Rotina exaustiva

Profissionais ouvidos apontaram rotinas exaustivas como um problema frequente. Em épocas movimentadas, os anotadores têm poucos minutos para executar certas tarefas e trabalham com um cronômetro ligado na plataforma. Quem não conclui a missão no prazo tem o trabalho cancelado e fica sem receber.

Segundo Lucas Smaira, ex-funcionário da Google DeepMind e diretor da Vetto AI, as gigantes da tecnologia buscam treinadores quando os próprios computadores não conseguem ampliar o repertório da IA sozinhos. “Para conseguir ensinar os modelos, só interessa aquilo que está na fronteira do conhecimento humano”, explica. “E para você estar na fronteira do conhecimento, nem o humano, nem a IA conseguem chegar lá sozinhos. Precisa ser uma colaboração entre homem e máquina.”

Posicionamento da Scale AI

Procurada, a Scale AI afirmou que o trabalho na plataforma não deve ser entendido como uma carreira principal, mas como uma fonte extra de renda: “A maioria dos profissionais realiza essa atividade em meio período para obter uma renda complementar, frequentemente conciliando-a com outras responsabilidades profissionais, acadêmicas ou familiares”.

Sobre os projetos que lidam com temas sensíveis, a empresa ressaltou que pede consentimento prévio dos anotadores e disponibiliza canais de apoio psicológico para quem participa.

Com informações de Folha — Tec.