O Itamaraty divulgou nesta quarta-feira (24) uma nota nas redes sociais acusando “traidores da Pátria” de estarem por trás do tarifaço anunciado pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros, atribuindo as sanções a uma “tentativa de interferência externa na justiça brasileira”.

A declaração, de tom incomum para a chancelaria brasileira, é uma resposta direta à confirmação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, pediu para discursar em audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) marcada para 6 de julho, quando os americanos devem avançar na decisão sobre tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras.

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Itamaraty reage com ‘traidores da pátria’

O Ministério das Relações Exteriores publicou nesta quarta-feira (24) uma nota em tom de confronto direto, sem precedente recente na diplomacia brasileira. Em sua conta oficial no X, o Itamaraty afirmou que “os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história” e que “o Brasil sabe que o tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na justiça brasileira”. A nota vai além: “O que os traidores da Pátria devem ao Brasil é um pedido de desculpas pelas tarifas e pelos prejuízos causados a milhares de brasileiros.”

A linguagem adotada pelo ministério é considerada incomum para declarações a nível diplomático no Brasil. Chancelarias costumam recorrer a formulações técnicas e protocolares, especialmente quando o alvo implícito é um parlamentar do próprio país atuando em instância estrangeira. Ao optar por termos como “traidores da Pátria”, o Itamaraty abandona o registro diplomático convencional e adota o vocabulário da disputa política interna, sinalizando a gravidade com que o governo avalia a situação.

A nota não cita Flávio Bolsonaro pelo nome, mas a referência é inequívoca. A manifestação do Itamaraty é uma resposta direta às articulações da oposição e de integrantes da família Bolsonaro que, segundo o governo, contribuíram para que os Estados Unidos abrissem investigação comercial contra o Brasil e propusessem as tarifas. O tom adotado também ecoa o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de aliados no período pré-eleitoral, revelando que a chancelaria passou a operar, ao menos neste episódio, em sintonia com a retórica de campanha do campo governista.

Ação de Flávio Bolsonaro nos EUA

O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato declarado à Presidência da República, apresentou no dia 22 de junho um requerimento ao USTR solicitando participação na audiência pública marcada para 6 de julho sobre o tarifaço contra o Brasil. No documento enviado ao órgão americano, o senador se identifica como membro do Senado Federal, figura de destaque na oposição parlamentar e pré-candidato à Presidência para as eleições de outubro. Ele pediu cinco minutos para se manifestar de forma presencial e em inglês perante o comitê.

Segundo as informações disponíveis, Flávio Bolsonaro pretende pedir a suspensão das tarifas e defender o Pix, sistema de pagamentos brasileiro que está entre os alvos das acusações americanas. No requerimento, o senador também afirma ter se reunido pessoalmente com o presidente Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio para tratar dos temas que motivaram a investigação.

A iniciativa foi celebrada por aliados bolsonaristas, que argumentaram que o senador estaria agindo mais do que o próprio governo para tentar evitar o tarifaço. Para o Itamaraty, porém, a participação de um parlamentar da oposição em uma audiência do USTR não representa defesa dos interesses brasileiros: representa, na leitura do governo, o oposto disso.

O ‘tarifaço’ dos EUA e a Seção 301

As tarifas propostas pelos Estados Unidos contra o Brasil chegam a 25% sobre mercadorias brasileiras, com uma taxa adicional de 12,5% por suposta falta de fiscalização sobre trabalho forçado. As sobretaxas ainda não estão em vigor: o USTR abriu prazo para que o Brasil se manifestasse antes de uma decisão final, e a audiência de 6 de julho integra esse processo.

A base legal para as investigações é a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, dispositivo que permite ao governo americano adotar medidas contra práticas comerciais consideradas injustas ou discriminatórias. No caso brasileiro, as acusações incluem o Pix, apontado como prática que distorce ou restringe o comércio com os norte-americanos, e o desmatamento ilegal. O USTR é o órgão responsável por conduzir essas investigações e recomendar medidas como a imposição de tarifas.

O enquadramento americano mistura questões de política interna brasileira, como o sistema de pagamentos instantâneos e o controle ambiental, com acusações de práticas comerciais desleais. Para o governo brasileiro, as acusações não têm sustentação técnica, posição que a chancelaria tem defendido por escrito desde o início do processo. Para a oposição, a abertura da investigação é prova de que o governo Lula deteriorou a relação com Washington.

Estratégia diplomática brasileira e críticas

O governo brasileiro tem atuado pela via diplomática desde a abertura da investigação, segundo o Itamaraty. A chancelaria afirma ter apresentado duas defesas escritas demonstrando que as políticas brasileiras não prejudicam o comércio com os Estados Unidos e ter realizado reunião de consultas governamentais em Washington com delegação de alto nível. O governo trabalha com o prazo de 15 de julho para fechar um acordo tarifário, data fixada pelo próprio USTR para uma definição sobre o tema.

A posição do Itamaraty sobre a audiência de 6 de julho é clara: trata-se de um espaço destinado ao setor privado e à sociedade civil, não a representantes de governos estrangeiros. A chancelaria aponta que outros parceiros comerciais relevantes dos EUA, como China e União Europeia, não enviam representantes pessoais a esse tipo de sessão, e que o canal adequado de negociação é o contato direto entre governos, no qual o Brasil já está presente.

Apesar da atividade diplomática, a percepção dentro do governo é de pessimismo. Integrantes da gestão Lula avaliam que as tratativas avançam sem um horizonte claro: os Estados Unidos ainda não indicaram quais pontos estariam dispostos a negociar, e há poucas sinalizações concretas por parte da Casa Branca. A relação pessoal entre Lula e Trump, que chegou a ser descrita como positiva, já não é a mesma, o que é citado como fator adicional de dificuldade para a construção de um acordo.

Implicações políticas e econômicas

O tarifaço dos EUA se converteu em disputa eleitoral antes mesmo de entrar em vigor. De um lado, aliados do presidente Lula atribuem a abertura da investigação americana à atuação da família Bolsonaro junto a autoridades de Washington, e o apelido “Tariflávio” passou a circular entre petistas desde o anúncio das novas sanções. De outro, Flávio Bolsonaro e seus aliados usam a própria existência das tarifas para demonstrar suposta influência junto ao governo Trump e para criticar a atuação internacional do governo federal.

A disputa revela uma assimetria política de alto risco para o Brasil: enquanto o Itamaraty tenta conduzir negociações técnicas por canais diplomáticos formais, a oposição opera em paralelo, em instâncias americanas, com uma narrativa que responsabiliza o governo Lula pelo impasse. O resultado é que a política comercial externa virou palco de campanha, com dois atores brasileiros apresentando versões contraditórias do país ao mesmo interlocutor estrangeiro.

O Itamaraty foi explícito ao nomear as consequências concretas desse conflito: os prejuízos causados a milhares de brasileiros pelas tarifas. A nota da chancelaria cobra um “pedido de desculpas” dos que, na avaliação do governo, contribuíram para que as sanções chegassem até aqui. Com a audiência do USTR marcada para 6 de julho e o prazo de 15 de julho para um acordo, o Brasil entra na fase mais crítica da negociação com o campo político interno dividido e a relação com Washington deteriorada.