O tráfico de pessoas passou a direcionar vítimas para centros de golpes digitais (scam centers) no sudeste asiático, em substituição à exploração sexual, segundo especialistas que participaram de audiência pública na Câmara dos Deputados na terça-feira (9). O debate ocorreu no grupo de trabalho da Casa dedicado a medidas de combate ao tráfico humano, vinculado à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.
O embaixador Aloysio Mares, representante do Itamaraty, afirmou que as quadrilhas atraem jovens com conhecimentos em informática oferecendo ganhos financeiros. Ao chegar aos centros, as vítimas têm os documentos retidos, deixam de receber salários e podem sofrer agressões físicas se não cumprirem metas diárias de fraudes. "Uma vez no exterior, as vítimas são submetidas à exploração laboral e obrigadas a aplicar golpes pela internet, como fraudes com criptomoedas, jogos de azar e falsos relacionamentos amorosos usados para extorquir outras pessoas. Além disso, são forçadas a recrutar novas vítimas da mesma nacionalidade", disse.

O Itamaraty registrou 153 casos de tráfico de pessoas no exterior em 2023 e 152 em 2024. Contudo, os números oficiais representam uma pequena parcela da realidade devido à alta subnotificação do crime. As vítimas resgatadas recebem abrigo, assistência psicológica e apoio para retorno voluntário ao país, em coordenação com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Dificuldades na investigação
Marina Bernardes de Almeida, coordenadora-geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Ministério da Justiça, destacou que os traficantes usam tecnologias para monitorar brasileiros no exterior. "As vítimas relataram que eram controladas por aplicativos de localização no celular. A internet é um fator crucial em todo esse processo e dificulta a repressão, porque hoje não vemos mais o autor do crime ao lado da vítima", afirmou.

Atualmente, o governo federal utiliza o Protocolo Operativo Padrão de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (POP TIP) no resgate de brasileiros no exterior, padronizando procedimentos e garantindo atuação integrada entre Itamaraty e Polícia Federal. A aplicação correta desde o primeiro atendimento ajuda a proteger as vítimas e reduz o risco de novos danos.
Lavagem de dinheiro
O delegado da Polícia Federal e representante da Interpol, Bruno Eduardo Samezina, enfatizou a importância de rastrear o dinheiro movimentado pelos esquemas criminosos. "Sem lidar com a estrutura econômica do crime, como os meios de pagamento e os mecanismos de lavagem de dinheiro, não haverá repressão eficiente. Se combatemos apenas os executores, o sistema acaba se recompondo", comentou.

Tráfico infantil e subnotificação
O embaixador Aloysio Mares informou que os registros consulares não apontam casos de crianças e adolescentes vítimas do tráfico internacional. A coordenadora do grupo de trabalho, deputada Carla Dickson (PL-RN), afirmou que a ausência desses dados pode indicar forte subnotificação. "Preocupa-me muito termos 23 mil crianças desaparecidas e não chegarem dados de crianças traficadas ao próprio Itamaraty", alertou.
Com informações de Câmara dos Deputados — Relações Exteriores — leia a matéria original.