Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o economista e ex-presidente do Banco Central, atual vice-chairman do Nubank, analisa a transformação econômica impulsionada pela inteligência artificial (IA). Segundo ele, o token — a menor unidade de linguagem consumida cada vez que um modelo de IA pensa, escreve ou decide — tornou-se o recurso definidor do século 21, assim como o carvão e o petróleo marcaram as eras anteriores.

De acordo com o texto, a adoção de IA saltou de 20% das empresas em 2017 para 88% em 2025, conforme dados da McKinsey. O chamado text coding democratizou a programação, permitindo que pessoas sem formação técnica profunda entreguem projetos com eficiência próxima à de desenvolvedores experientes. As empresas correm para se tornar AI First, com a IA passando de mera executora de tarefas a geradora de ideias.

O autor relata uma mudança cultural em Palo Alto: na contratação, candidatos perguntam quantos tokens poderão gastar, indicando que a produtividade passou a depender do volume de tokens disponíveis. O token é descrito como a nova unidade monetária da inteligência, equivalente ao barril de petróleo do século passado.

Barreiras: energia e minerais

O consumo global de eletricidade por data centers atingiu 415 TWh em 2024, com projeção de 945 TWh em 2030, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Nos Estados Unidos, data centers de IA podem demandar 123 gigawatts até 2035, cerca de 30 vezes mais que em 2024. As cinco maiores empresas de tecnologia destinaram mais de US$ 400 bilhões em investimentos de capital em 2025, alta de 72% em um ano. Jensen Huang, da Nvidia, afirmou: “A receita de IA é limitada pela energia”.

Além da energia, os minerais de terras raras são essenciais para semicondutores. A China controla cerca de 60% da mineração mundial e 90% da capacidade de refino. Em outubro de 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre minerais críticos, elevando preços na Europa e provocando cortes de produção. Os EUA formaram uma coalizão para garantir cadeias de suprimento.

Posição estratégica do Brasil

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, estimada em 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China. Fornece cerca de 90% da demanda global de nióbio, mineral crítico para supercondutores e baterias. Quase 90% da matriz elétrica brasileira provém de fontes renováveis, ante média global de aproximadamente 32%, segundo a IEA.

O mercado já sinaliza esse reposicionamento: a Microsoft anunciou US$ 2,7 bilhões em expansão de data centers no Brasil; a Amazon Web Services planeja US$ 1,8 bilhão. O autor ressalta que os ativos energéticos e minerais brasileiros estão se valorizando, oferecendo vantagens comparativas não baseadas em commodities agrícolas, mas em energia limpa e minerais estratégicos.

Para aproveitar a oportunidade, o economista defende fundamentos econômicos robustos, segurança jurídica e planejamento energético. “O Brasil pode se tornar não apenas exportador dos insumos da inteligência artificial, mas destino preferencial de investimentos”, conclui.

Com informações de Folha — Mercado.