As terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para a tecnologia moderna, estão no centro de uma disputa estratégica global. Presentes em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos militares, esses minerais são vitais para a economia digital e a transição energética. Apesar do nome, não são necessariamente escassos na natureza, mas sim raros em concentrações economicamente viáveis e de difícil separação e purificação.

Segundo Sidney Ribeiro, professor do Instituto de Química de Araraquara da Unesp, a dependência tecnológica das terras raras é ampla e muitas vezes subestimada. "Hoje, tudo relacionado à tecnologia envolve terras raras na sua fabricação, desde o celular até turbinas eólicas ou carros elétricos", afirma. Essa dependência elevou o tema ao patamar de segurança econômica e industrial.

Ímãs de alto desempenho impulsionam a demanda

A principal aplicação estratégica está nos ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, usados em motores, aerogeradores e sistemas de defesa. De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), esses ímãs respondem por cerca de 95% do consumo total de terras raras em valor. A demanda por neodímio, praseodímio, disprósio e térbio dobrou desde 2015 e deve crescer mais de um terço até 2030, impulsionada pela eletrificação e digitalização.

Sem esses elementos, motores elétricos perdem eficiência, turbinas eólicas têm desempenho reduzido e setores estratégicos ficam dependentes de substitutos menos eficazes. O debate, portanto, vai além da mineração: trata-se de quem controla as etapas industriais que transformam o minério em produto final.

Brasil: potencial geológico versus produção real

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas ou recursos de terras raras, o equivalente a 23% do total mundial, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB). No entanto, a produção é mínima. O SGB informou que o país produziu apenas 20 toneladas em 2024, menos de 1% da produção global. Já o Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou para 2025 uma produção brasileira de 2 mil toneladas, diante de 270 mil toneladas da China e um total mundial de 390 mil toneladas.

André Pimenta, coordenador do CIT SENAI ITR, explica que a existência de reservas não garante uma mina operante. "Desde o momento em que você descobre um depósito, precisa perfurar, caracterizar, fazer as solicitações de licenciamento. Algumas vezes você precisa de infraestrutura, energia elétrica, rodovia. Isso demanda tempo", afirma. Os principais recursos brasileiros estão em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe, com destaque para Araxá, Minaçu, Seis Lagos, Pitinga e Jequié.

O gargalo químico e o domínio chinês

O grande desafio não está apenas na extração, mas na separação e purificação dos elementos. Pimenta ressalta que trabalhar com terras raras é "quase um processo mais químico do que mineral". Sidney Ribeiro complementa: "O processamento do minério o Brasil faz. Agora, a extração das terras raras do minério ainda é o gargalo".

A China domina a cadeia produtiva. Em 2024, respondeu por 60% da produção minerada global, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs, segundo a IEA. Para Ribeiro, "toda a produção, extração e produção, que é uma atividade muito poluidora, se concentra hoje na China". Pimenta alerta que a concentração gera vulnerabilidade geopolítica: "Toda vez que tem uma tensão geopolítica, o pessoal da China tende a fazer restrições de comércio".

Fim da confiança nas cadeias globais

A pandemia, a guerra comercial e os controles de exportação chineses em 2025 expuseram os riscos da dependência. A IEA relata que as restrições causaram dificuldades de fornecimento e paradas de produção em outros países. Pimenta classifica a aposta anterior na globalização como uma "crença ingênua" no livre comércio. Ribeiro resume: "Houve um caos mundial. A China parou de vender, alguns países retomaram a produção, mas isso culminou com a situação de hoje, esse problema geopolítico imenso".

No Brasil, a dependência atravessa setores críticos. "Se o Brasil parar de comprar terra rara, o país para, simplesmente", afirma Ribeiro, citando telecomunicações, veículos elétricos e energia eólica. Grande parte do consumo chega embutida em produtos prontos, dificultando a medição da vulnerabilidade.

Near shore e friendly shore: a nova geografia

A busca por fornecedores próximos (near shore) e aliados (friendly shore) ganha força. Pimenta vê uma "corrida pelas terras raras" e acredita que haverá fomento a outros players para diminuir a dependência e regular preços. A IEA projeta que, em 2035, a capacidade fora da China cobrirá apenas metade das necessidades de mineração, um quarto do refino e menos de um quinto da demanda por ímãs.

Para os especialistas, o Brasil tem condições de avançar. Pimenta defende que o país se posicione como desenvolvedor de tecnologia, não apenas fornecedor de matéria-prima. Ribeiro acrescenta: "O Brasil tem tecnologia, tem possibilidade, tem massa crítica de pesquisadores". O caminho, porém, exige superar gargalos de licenciamento, investimento e desenvolvimento de processos químicos economicamente viáveis.

Com informações de Olhar Digital.