A velejadora e escritora Tamara Klink, 29, passou oito meses de inverno presa no gelo do Ártico, na Groenlândia, em uma experiência que ela descreve como uma imersão no ritmo do planeta. Em entrevista à Folha, ela falou sobre os desafios da solidão, a preparação para situações extremas e sua visão sobre as mudanças climáticas.
Preparação e isolamento
Tamara passou três meses sem ver o sol, quatro meses sem contato humano e seis meses com o barco imobilizado pelo gelo. Para ela, o maior desafio não foi saber o que levar, mas descobrir o mínimo necessário em competência, recursos e força física. A preparação, segundo ela, serve para momentos em que não há tempo para pensar, como quando caiu na água gelada e precisou escalar uma parede para se salvar.
Ela atribuiu sua reação à terapia e à prática de escalada, que a ajudaram a manter a lucidez e a confiança. "Não imaginei que a escalada serviria para eu confiar que com a ponta dos dedos eu conseguia erguer meu corpo", afirmou.
Gênero e liberdade
No livro "Bom Dia, Inverno", Tamara aborda o medo que mulheres enfrentam ao viajar sozinhas. Ela destacou que, além dos medos grandes — como ser atacada —, há os pequenos medos cotidianos, como o de desagradar, que consomem energia e limitam a autonomia. A solidão no Ártico lhe trouxe uma sensação de liberdade, pois o gênero deixou de ser um parâmetro.
Sobre uma relação abusiva vivida durante a preparação da viagem, ela disse que a experiência a fez entender melhor a vulnerabilidade de mulheres em diversas áreas, como cinema e esportes. "Não basta termos mais direitos se a gente não tiver uma mudança cultural", afirmou.
Mudanças climáticas e esperança
Tamara observou que o Ártico está aquecendo três vezes mais rápido que o resto do planeta, e que as geleiras contribuem diretamente para o aumento do nível do mar. Ela criticou a falta de adaptação das cidades, citando a tragédia no Rio Grande do Sul como exemplo de escolhas políticas inadequadas. "Tudo que a gente fizer agora para reduzir as emissões vai custar muito menos e ter muito mais resultado do que se for feito daqui dez anos", disse.
Para ela, a esperança está na ação e na percepção de que a abundância material não traz felicidade. "As melhores coisas da vida não estão nos objetos, estão nas sensações", afirmou. Ela considera sua missão de vida fazer o que estiver ao alcance para preservar o gelo marinho, usando histórias, livros e redes sociais para conscientizar.
Adaptação como realismo
A velejadora comparou sua postura de se preparar para o pior com a necessidade de adaptação das cidades. "Sei que há registros de situações piores no mesmo lugar. Assim, me adapto a situações mais hostis", explicou. Ela defende que a crise climática é também uma crise de imaginação, pois as pessoas têm dificuldade de imaginar um mundo diferente.
Atualmente, Tamara mora em seu barco e dedica-se a divulgar a história da viagem. Ela nasceu em São Paulo em 1997, formou-se em arquitetura naval e já atravessou a Passagem Noroeste em solitário, além de cruzar o Atlântico solo duas vezes.
Com informações de Folha — Ambiente.