O Brasil se prepara para enfrentar, a partir de 2026, os impactos de um super El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Agravado pelas mudanças climáticas, o evento tende a intensificar ondas de calor, provocar estiagens em diversas regiões e aumentar o volume de chuvas no Sul do país, com risco de enchentes.
De acordo com projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno deve se formar entre maio e julho de 2026 e atingir o pico entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. No Brasil, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste devem ser as mais afetadas, com temperaturas acima da média histórica, redução das chuvas e estiagens prolongadas.

O que é uma onda de calor?
Uma onda de calor ocorre quando as temperaturas permanecem significativamente acima da média por vários dias consecutivos. No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) classifica o fenômeno quando a temperatura máxima diária permanece pelo menos 5 °C acima da média climatológica por cinco dias ou mais. Esse cenário reduz a umidade do ar, aumenta a incidência solar e gera ilhas de calor urbanas em áreas densamente urbanizadas, com pouca vegetação e muito concreto.
Impactos na saúde
O corpo humano funciona dentro de uma faixa térmica estreita, próxima de 36,5 °C a 37 °C. Quando a temperatura ambiente sobe, o organismo precisa trabalhar mais para dissipar calor, principalmente por meio do suor e da vasodilatação. Sob calor intenso, podem surgir sinais de desidratação, queda de pressão e desequilíbrio eletrolítico. Em casos graves, há risco de falência renal (por desidratação profunda) e insolação.
Segundo relatório publicado na revista científica The Lancet, a mortalidade associada ao calor extremo em pessoas acima de 65 anos aumentou 53,7% globalmente nas últimas duas décadas. No Brasil, um estudo da Fiocruz em parceria com a Universidade Federal da Bahia aponta que 120 mil pessoas morreram em decorrência da exposição ao calor nos últimos 20 anos, o que equivale a cerca de 0,6% de todos os óbitos registrados no país no período. Desses, 80% eram idosos — mais de 97 mil mortes em pessoas acima de 65 anos.
Outros grupos vulneráveis incluem crianças pequenas, gestantes, pessoas com doenças cardiovasculares e crônicas, trabalhadores expostos ao sol e pessoas em situação de rua.
Sintomas de alerta
Reconhecer rapidamente os sintomas pode evitar complicações graves. Os sinais iniciais incluem:
- Sede intensa
- Fadiga e tontura
- Dor de cabeça
- Suor excessivo
- Fraqueza e cãibra muscular
Sinais mais graves podem envolver:
- Desmaios
- Confusão mental
- Náusea intensa
- Taquicardia
- Dificuldade respiratória
- Febre
Medidas de proteção
Seguindo recomendações do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), é importante manter as instalações domésticas frescas. Estratégias incluem fechar cortinas nas horas mais quentes, abrir janelas durante a noite e usar ventiladores ou aparelhos de resfriamento, se disponíveis. Durante o dia, evite exposição direta ao sol entre 10h e 16h e, ao ar livre, use protetor solar, chapéus e guarda-chuvas de proteção.
A hidratação é fundamental: beber água em intervalos regulares, levar sempre uma garrafa e uma toalha úmida para se refrescar. Colocar a toalha umedecida em volta do pescoço ajuda a evitar superaquecimento. Atenção especial para crianças e animais em lugares fechados, como veículos ou cômodos pequenos, onde a temperatura pode atingir níveis perigosos em poucos minutos.
Impactos econômicos e urbanos
O calor extremo também afeta serviços essenciais e a economia. Entre os principais efeitos estão:
- Aumento da demanda energética, sobrecarregando os sistemas de distribuição
- Sobrecarga nos hospitais e atendimentos de emergência
- Interrupção no fornecimento de produtos alimentícios por perdas de safras
- Redução da produtividade do trabalho
Diante desse cenário, é recomendável que governos e sociedade atuem em conjunto para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na estrutura urbana e nos locais de trabalho.
Preparação das cidades brasileiras
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), 53 cidades brasileiras já identificam o calor extremo como um risco crítico para a população e para os sistemas urbanos. No entanto, 66% das cidades ainda não iniciaram ou estão apenas começando seus planos de ação, e 85% dependem de recursos externos para implementar medidas de contenção.
Um relatório da Coalizão pelo Resfriamento, apresentado na COP30, aponta que as ações mais comuns são soluções baseadas na natureza — como arborização, parques, telhados e muros verdes, restauração de rios e áreas úmidas, lagoas de retenção e biovaletas — presentes em 77% dos municípios. Em contraste, poucas cidades incorporam estratégias de resfriamento passivo em edificações e espaços urbanos, como ventilação cruzada, cores refletivas, tinta térmica e pavimentos permeáveis — apenas 21% ou menos.
“Entre as ações mais comuns, destacam-se soluções baseadas na natureza — como arborização, parques, telhados e muros verdes, restauração de rios e áreas úmidas, lagoas de retenção e biovaletas — presentes em 77% dos municípios”, afirma o relatório produzido pela Coalizão pelo Resfriamento, apresentado na COP30.
“Em contraste, poucas cidades incorporam estratégias de resfriamento passivo em edificações e espaços urbanos, como ventilação cruzada, cores refletivas, tinta térmica e pavimentos permeáveis (apenas 21% ou menos).”
Os dados foram levantados durante visita técnica ao Centro de Operações Rio (COR), no Rio de Janeiro, durante a Rio Nature & Climate Week, que investigou cidades brasileiras participantes da iniciativa Beat the Heat (Mutirão contra o Calor) para avaliar seu nível de preparação para enfrentar o calor extremo.