O Brasil enfrenta a iminência de um Super El Niño que pode superar os índices registrados em 1877/1878, um dos mais severos da história. Dados dos centros climáticos da Europa (ECMWF), Estados Unidos (NOAA) e Austrália (BOM) indicam que o fenômeno, impulsionado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, deve chegar ao país no segundo semestre de 2026, ganhando força na primavera e atingindo o auge entre o fim do ano e o primeiro semestre de 2027.

O climatologista José Antônio Marengo Orsini, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que o aquecimento máximo deve ocorrer no verão, entre dezembro e janeiro, e depois diminuir até se dissipar em maio ou junho de 2027. O fenômeno ocorre em consequência do aquecimento das águas superficiais do Pacífico, desde a Austrália até a costa da América do Sul, alterando padrões de temperatura e chuvas em várias partes do mundo.

Impactos regionais previstos

Na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, cresce o temor de novas enchentes em áreas ainda marcadas pela tragédia de maio de 2024. Na Amazônia e no Cerrado, a redução das chuvas e o aumento das ondas de calor podem criar condições favoráveis à propagação de incêndios florestais. No Nordeste, a seca tende a se intensificar, enquanto no Sudeste e no Centro-Oeste o clima seco e as ondas de calor devem piorar.

O pesquisador Francisco Aquino, climatologista e diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), alerta que o período mais crítico será entre o fim de 2026 e o início de 2027. Segundo ele, o aquecimento do Pacífico deve elevar as temperaturas no Centro-Norte do país e favorecer chuvas mais intensas na região Centro-Sul. “É por volta de maio de 2027, na fase final do El Niño, quando atingimos o auge do acúmulo de águas mais quentes e do acoplamento entre atmosfera e oceano, que poderemos observar eventos extremos de tempestades e precipitações no Sul do País”, afirma.

Preparação do governo federal

O país já iniciou ações preventivas. Em fevereiro de 2026, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, assinou uma portaria decretando estado de emergência ambiental em algumas regiões, obrigando estados, municípios e órgãos federais a criar programas específicos para mitigar os efeitos do El Niño. Em maio, o Supremo Tribunal Federal (STF) cobrou do governo Lula e dos estados mais atingidos na última edição do fenômeno a apresentação de um plano de trabalho. A resposta está sendo coordenada pela Advocacia-Geral da União (AGU) e pela Casa Civil.

Na segunda-feira, 15 de junho de 2026, o governo federal publicou uma Medida Provisória com crédito extraordinário de R$ 337,5 milhões para reforçar ações de prevenção e combate a incêndios florestais e fiscalização ambiental. Esse valor se soma a pouco mais de R$ 1 bilhão já previsto para o combate a incêndios florestais ao longo de 2026.

João Paulo Sotero, diretor de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios do Ministério do Meio Ambiente, afirma: “Já temos disponíveis 1,023 bilhão de reais para o enfrentamento dos incêndios florestais em 2026, um valor recorde e 28% superior ao do ano passado.” O montante representa um salto expressivo em relação a 2022, último ano do governo Bolsonaro, quando foram destinados R$ 337 milhões para essa finalidade. O orçamento federal para incêndios florestais cresceu de forma contínua: R$ 430 milhões em 2023, R$ 627 milhões em 2024 e R$ 799 milhões em 2025.

Além disso, o governo federal destinou quase R$ 600 milhões do Fundo Amazônia aos Corpos de Bombeiros dos estados mais vulneráveis, para capacitação de brigadistas e aquisição de equipamentos na Amazônia Legal e no Cerrado, com atenção especial ao Pantanal. Em maio, o ministro interino João Paulo Capobianco participou, em Brasília, de uma cerimônia de entrega de cerca de cem veículos e equipamentos de combate ao fogo para Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Distrito Federal e a Força Nacional.

Mudança de enfoque: prevenção versus resposta

O reforço faz parte de uma estratégia de ampliar a capacidade de resposta e fortalecer ações preventivas, em contraste com o que predominou nos últimos anos, quando a maior parte dos recursos foi destinada a medidas emergenciais após desastres. Dados do Greenpeace Brasil mostram que, entre 2015 e 2025, o país investiu muito mais em respostas a desastres do que em prevenção. Segundo o estudo, que analisou a destinação de verbas da Lei Orçamentária Anual ao Programa de Gestão de Risco e Desastres, apenas 3,28% dos recursos federais foram aplicados em monitoramento e mitigação de riscos, enquanto 37% foram destinados a ações de defesa civil voltadas à resposta a eventos climáticos.

Tiago Schnoor, coordenador-geral de Gerenciamento de Desastres da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, ressalta que o governo definiu um planejamento específico para o El Niño, com reuniões periódicas com as defesas civis estaduais e intensificação do monitoramento em áreas de maior atenção. “O País conta hoje com boa capacidade de antever situações que possam impactar a população”, afirma.

Preparação do Rio Grande do Sul

Dois anos após a maior enchente da história, o Rio Grande do Sul também se prepara. Na quarta-feira, 17 de junho de 2026, o governador Eduardo Leite (PSD) lançou um programa específico para lidar com o fenômeno, prevendo a transferência de R$ 32,9 milhões, por meio do Fundo Estadual de Defesa Civil, aos municípios para aquisição de sistemas de monitoramento, alerta e alarme, obras de drenagem, sinalização de rotas de evacuação e pontos de encontro protegidos.

Desafios estruturais e adaptação

O climatologista Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo (USP), observa tentativas de implementar políticas de adaptação, algo que não existia até pouco tempo. “Há um grande contingente de habitantes em áreas de risco, às margens de rios sujeitos a inundações ou em encostas vulneráveis a deslizamentos. Os governos precisam estar preparados para retirar essas populações”, afirma. Ele acrescenta que o setor de agricultura também precisa se preparar, principalmente na Amazônia e no Nordeste, onde uma megasseca pode levar a uma grande queda na produtividade.

Thaynah Gutierres, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista e integrante do Observatório do Clima, destaca que a crise climática não pode ser dissociada das desigualdades históricas. “As populações em situação de vulnerabilidade enfrentam adversidades severas no dia a dia e, quando ocorre um evento climático extremo, elas se aprofundam. Na iminência de um El Niño de grande intensidade, veremos esses territórios sendo atingidos primeiro e de forma mais dura, justamente porque as injustiças históricas que marcam essas regiões nunca foram efetivamente reparadas”, afirma.

Francisco Aquino ressalta que a sociedade precisará aprender a conviver com o fenômeno. “Se o El Niño vem, não há como impedi-lo. O que podemos fazer é nos preparar. Precisamos investir em adaptação e prevenção”, diz. Avaliação compartilhada por Marengo, que lembra que, embora o El Niño não tenha relação direta com as mudanças climáticas, seus efeitos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global. “Independentemente da intensidade, seus impactos estão se tornando cada vez mais severos”, conclui.