Os eleitores suíços rejeitaram, em referendo realizado neste domingo (14 de junho), a proposta de limitar a população do país a 10 milhões de habitantes. Segundo projeções iniciais, 55% dos participantes votaram contra, enquanto 45% foram a favor. A iniciativa era defendida pelo Partido Popular Suíço, de direita, que há anos faz campanha com plataforma anti-imigração.

Proposta e contexto demográfico

A Suíça tem atualmente 9,1 milhões de habitantes, dos quais 27% nasceram no exterior. Em 2002, a população era de 7,3 milhões. O texto rejeitado previa que o país não ultrapassasse 10 milhões até 2050, com medidas compulsórias do governo quando a cifra de 9,5 milhões fosse atingida. Entre as ações possíveis estavam limitar o número de concessões de asilo e extinguir direitos de reunificação familiar para trabalhadores estrangeiros.

Argumentos a favor

O Partido Popular Suíço sustentava que o limite aliviaria a pressão sobre transportes, habitação e meio ambiente. Nils Fiechter, de 29 anos, representante do partido no parlamento do cantão de Berna, afirmou à BBC: “Perdemos o controle. A imigração descontrolada está fazendo com que a Suíça deixe de ser a Suíça.” Fiechter e o co-presidente da ala jovem do partido foram condenados em 2022 por discriminação racial pelo Tribunal Federal Suíço, devido a um cartaz de 2018 contra ciganos e viajantes. Ele atribuiu à imigração problemas como escassez de moradias, trânsito congestionado, escolas sobrecarregadas e serviços sociais precários.

Argumentos contrários

O governo, outros partidos, líderes empresariais e sindicatos classificaram a proposta como “iniciativa do caos”. Helin Genis, social-democrata de 31 anos eleita para o conselho municipal de Berna, rebateu que os imigrantes não são responsáveis pelos altos aluguéis, planos de saúde ou decisões políticas sobre habitação e infraestrutura. “Enxergar os problemas pela ótica da imigração não leva a soluções, mas à divisão”, declarou.

Rudolf Minsch, economista-chefe da associação empresarial Economiesuisse, alertou que o limite populacional poderia prejudicar as relações com a União Europeia. A Suíça não integra o bloco, mas depende da livre circulação de pessoas para acessar o mercado único. Mais da metade dos produtos suíços são vendidos na UE, e tarifas punitivas dos EUA — como a de 39% sobre itens suíços, ainda não reduzida a 15% — já pressionam a economia. Jon Pult, parlamentar social-democrata, disse temer que a Suíça ficasse “sozinha neste mundo instável e perigoso”, em meio a conflitos na Ucrânia e no Irã e a gastos crescentes com defesa.

Repercussões e desdobramentos

Se aprovada, a medida teria forçado a Suíça a rescindir o acordo de livre circulação com a UE, isolando o país. Empregadores suíços, especialmente nos setores de hotelaria e saúde — onde metade dos funcionários é imigrante —, alertavam para escassez de mão de obra. O Partido Popular argumentava que a imigração alimenta a demanda por serviços públicos, enquanto opositores apontavam que 20% da população tem mais de 65 anos e o país precisa de jovens trabalhadores para sustentar o envelhecimento populacional.

Nenhum outro país tentou impor um limite populacional rígido; a China, com sua política do filho único (já abandonada), buscou desacelerar o crescimento, mas não fixou um teto. Durante a campanha, cartazes contra o limite mostravam os presidentes Donald Trump (EUA), Vladimir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) com a pergunta: “Romper com a Europa, em um momento como este?”. Fiechter, no entanto, insistiu que a iniciativa visava proteger um modo de vida: “Qualquer pessoa que ame a Suíça quer que ela continue sendo um lugar seguro e próspero.” Genis concluiu: “A questão chave não é como excluir pessoas, mas como criar moradias acessíveis, garantir boas condições de trabalho e investir em serviços públicos fortes.”