A Starlink, empresa de internet via satélite do empresário Elon Musk, é a principal operadora de banda larga fixa nos municípios brasileiros com maior concentração de população rural. Levantamento do Poder360 com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostra que a companhia soma 8.731 acessos em cidades onde mais de 75% dos habitantes vivem em áreas rurais, o que representa 12,8% do total de conexões nesses municípios.
O desempenho da Starlink cresce conforme aumenta o grau de ruralidade. Nas cidades mais urbanizadas, com menos de 1% de população rural, a empresa responde por apenas 0,4% dos acessos. Esse percentual sobe para 6,9% nos municípios com 10% a 25% de população rural e ultrapassa 10% nas localidades onde ao menos metade dos moradores vive fora do perímetro urbano.
Tecnologia e expansão
A vantagem da Starlink em áreas remotas deve-se à menor necessidade de infraestrutura terrestre. Enquanto redes tradicionais dependem de fibra óptica, cabos e torres – muitas vezes inexistentes nessas regiões –, a conexão via satélite exige apenas uma antena instalada no imóvel do cliente, geralmente enviada pela empresa. A tecnologia opera com satélites em órbita baixa, que retransmitem o sinal para estações terrestres, integrando-o à rede global de internet.
A expansão da constelação depende de lançamentos frequentes da SpaceX, também de Elon Musk. Desde o início das operações em 2019, a Starlink já realizou 389 missões. Nos primeiros dois anos, foram apenas 16 lançamentos; em 2026, até 28 de maio, já ocorreram 48 missões (média de 2,21 por semana). Em 2025, a média semanal foi ainda maior: 2,35 missões. Cada lançamento coloca cerca de 20 satélites em órbita. Em 5 de maio de 2026, havia 10.296 satélites Starlink em órbita, dos quais 10.280 operacionais, segundo o astrônomo Jonathan McDowell.
Crescimento acelerado no Brasil
Desde que chegou ao Brasil em fevereiro de 2022, a Starlink registrou crescimento médio mensal de 59% no número de clientes, tornando-se a 14ª maior operadora do país. No mesmo período, operadoras tradicionais de fibra óptica não cresceram mais de 1% ao mês.
Um entrave para a adoção em massa é o custo inicial do equipamento. O kit mini, mais barato, custa em média R$ 2.000, podendo variar conforme a localidade – em alguns lugares é vendido a R$ 499. A assinatura mensal é de R$ 189, enquanto operadoras tradicionais oferecem planos a partir de cerca de R$ 100, muitas vezes sem taxa de adesão.
Fazendas de Starlink
O alto custo inicial estimulou o surgimento das chamadas “fazendas de Starlink” em regiões remotas. Nesse modelo, um conjunto de antenas é instalado em um mesmo local para captar o sinal dos satélites. A capacidade é concentrada em equipamentos de rede (roteadores, switches, servidores) e distribuída a um provedor local, que revende a internet a clientes por cabos, redes sem fio ou enlaces de rádio. Na prática, transforma conexões individuais em uma estrutura de revenda de sinal, podendo baratear o acesso, mas criando um serviço paralelo de telecomunicações.
A prática é irregular quando feita sem autorização da Anatel para prestar o Serviço de Comunicação Multimídia (SCM). A agência afirma que fornecer capacidade de tráfego de dados para interligar assinantes à internet sem outorga caracteriza exploração clandestina de SCM.
Metodologia e divergência de dados
O levantamento usou dados públicos de acessos de banda larga fixa da Anatel, informados pelas prestadoras de SCM. Cada acesso corresponde a uma conexão ativa declarada por operadora em determinado município. Os números da Anatel, porém, diferem dos divulgados pela Starlink: em janeiro de 2026, a empresa afirmou ter 1 milhão de clientes no Brasil, enquanto a agência registrava 704.761 acessos em março de 2026.
Questionada pelo Poder360, a Anatel afirmou que a inconsistência pode decorrer de informações incorretas enviadas pela própria empresa. As prestadoras devem encaminhar os dados até o dia 15 do mês seguinte ao período medido; a agência afirma que não há defasagem superior a um mês. A Starlink foi procurada, mas não respondeu até a publicação. O número de acessos não equivale necessariamente ao total de usuários, pois uma conexão pode atender mais de uma pessoa, domicílio ou estabelecimento, e não mede qualidade, velocidade ou cobertura territorial.
Com informações de Poder360.