A SpaceX, empresa aeroespacial de Elon Musk, apresentou um plano para colocar em órbita uma rede de data centers que poderia elevar o número de satélites de menos de 20 mil para mais de um milhão nos próximos nove anos. O projeto foi revelado durante o pedido de oferta pública inicial (IPO) da companhia, cujas ações, precificadas em US$ 135, começam a ser negociadas na Bolsa nesta sexta-feira (12). Com a captação recorde de US$ 75 bilhões no maior IPO da história, a empresa estima que o negócio de data centers possa valer US$ 2,4 trilhões, com lançamentos previstos para 2028.
Oposição de astrônomos
Astrônomos se opõem ao projeto e afirmam que, até 2035, haverá mais satélites iluminados no céu noturno do que estrelas visíveis. Eles criticam os danos à visibilidade das estrelas, possíveis efeitos no ciclo de sono dos animais devido à iluminação noturna, impactos ambientais dos milhões de lançamentos espaciais necessários e a falta de regras para o empreendimento.

A professora de astronomia da Universidade de Regina, no Canadá, Samantha Lawler, fez uma simulação do efeito da constelação de satélites no céu de São Paulo durante o solstício de verão, em 21 de dezembro. Segundo ela, o número de satélites da SpaceX visíveis saltaria de zero para 14.072. "Nós ainda subestimamos os tamanhos dos satélites, de acordo com os dados que a SpaceX apresentou posteriormente, após o encerramento do período de comentários da FCC", disse Lawler. Em latitudes canadenses, o número de satélites se aproximaria de 40 mil, ante cerca de 5 mil estrelas visíveis.
Avaliação regulatória
O projeto depende de uma licença da FCC (Comissão Federal de Comunicações), órgão regulador dos Estados Unidos sob controle de Donald Trump. Em fevereiro, a agência encaminhou a proposta de Musk para avaliação pública em apenas quatro dias após a entrega dos documentos, prazo que, segundo astrônomos e concorrentes, costuma levar semanas ou meses. Uma startup apoiada por Google e Nvidia, a Starcloud, também fez um pedido similar para 88 mil satélites no início de fevereiro, mas ainda não passou por consulta pública.
A maioria das pessoas que já conheciam o projeto se mostrou contrária durante a tomada de decisão da FCC em março. Foram registradas 1.533 petições de 1.464 pessoas e entidades, incluindo astrônomos premiados, ambientalistas, jornalistas e entusiastas da observação noturna. Cerca de dez a cada 11 posicionamentos são contra o projeto.
Impactos ambientais e críticas
A SpaceX argumenta que os data centers espaciais gerariam economia de água e eletricidade e entregariam serviços digitais com baixa latência em todo o mundo. A empresa afirma que essa será a base do futuro da inteligência artificial. No entanto, o professor de astronomia Hanno Rein, da Universidade de Toronto, classificou as vantagens ambientais citadas pela SpaceX como "o maior greenwashing da história".
Segundo Rein, cada lançamento espacial libera grandes quantidades de gases de efeito estufa. Um único voo do Falcon 9 emitiu cerca de 28 mil toneladas de gás carbônico equivalente, conforme estudo da Glasgow Caledonian University. Além disso, os satélites seriam maiores que os atuais para garantir geração de energia solar e resfriamento por radiação, já que não há água nem ar no espaço. Os chips geram muito calor e, sem resfriamento, podem falhar acima de 90°C.
Atualmente, o lançamento de satélites exige permissão apenas do regulador local de telecomunicações. Nos Estados Unidos, a FCC não tem critérios para avaliar a iluminação do céu ou o risco de reentrada. A União Internacional de Telecomunicações (UIT), subordinada à ONU, delegou essa aprovação aos órgãos nacionais. "A FCC pode simplesmente liberar 1 milhão de satélites para uma empresa americana; nos moldes atuais, cada entidade nacional tem esse poder", resume Lucas Fonseca, CEO da empresa aeroespacial Airvantis.