A deputada Sônia Guajajara (PSOL-SP) afirmou que a preservação da biodiversidade é condição indispensável para o desenvolvimento de qualquer tecnologia. A declaração foi dada durante o painel "A Crise da Biodiversidade É Uma Crise Empresarial" no Web Summit Rio, ao lado do climatologista Carlos Nobre e do diretor do prêmio The Earthshot Prize na América Latina, Felipe Villela, com mediação do jornalista Márcio Gomes.
Para Guajajara, a disputa internacional por riquezas naturais e terras raras, matérias-primas para a transição energética, coloca em risco territórios indígenas e a soberania nacional. Ela destacou que o Brasil possui a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, atrás apenas da China, e pode sofrer pressão dos Estados Unidos. "Se o Brasil não se prepara para fazer a exploração e o beneficiamento da matéria-prima, com a produção dessas tecnologias, vai apenas exportar e depois recebê-las muito mais caras, perdendo toda a sua autonomia", disse.

Críticas ao modelo extrativista
A ex-ministra dos Povos Indígenas defendeu que a exploração de minerais estratégicos deve respeitar os modos de vida locais e incluir consulta prévia aos povos afetados. Ela também apontou contradições das novas tecnologias, como o alto consumo de água pela inteligência artificial. "Não tem como tratar de tecnologia sem tratar da proteção do meio ambiente, mas poucas pessoas fazem essa conexão", afirmou.
Guajajara propôs uma conexão com a natureza como resposta ao modelo predominante. "Falar de terras indígenas e de demarcação de territórios é falar sobre um bem para a humanidade, porque nesses lugares é possível tomar um banho de rio, pegar uma fruta no pé, praticar sua cultura", disse. Ela citou exemplos de produção sustentável por povos indígenas, como alimentos, plantas medicinais e artesanato.
Demandas por demarcação e orçamento
A deputada cobrou do governo federal o avanço na demarcação de terras indígenas, destacando que há um "passivo grande" de territórios a regularizar. Ela apontou o Congresso Nacional como obstáculo: "O Congresso Nacional tomou a pauta indígena como uma pauta de oposição". Também criticou o orçamento insuficiente da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial e do Ministério dos Povos Indígenas, do qual ela se desligou em março para concorrer à reeleição como deputada federal por São Paulo.
Guajajara concluiu defendendo a democracia, a soberania e os direitos indígenas como pilares para a proteção dos recursos naturais, que, segundo ela, são guardados pelos próprios indígenas "às vezes com a própria vida".