O ator João Paulo Lorenzon prepara o solo teatral "Nietzsche, do cavalo nada sabemos", que estreia em julho na programação off do Festival d'Avignon, na França. A peça, inspirada em um poema de Denise Stoklos, aborda o episódio que marcou o início do colapso mental do filósofo Friedrich Nietzsche, ocorrido em Turim, ao ver um cavalo sendo chicoteado por um cocheiro.
Nos ensaios, Lorenzon aplica chicotadas no próprio corpo, deixando marcas visíveis, sem expressão de dor. A performance busca refletir sobre violência, destruição, culpa, desejo e reparação. O ator descreve o trabalho como um mergulho nas profundezas da alma humana.
Denise Stoklos enviou o poema a Lorenzon após assistir duas vezes a outra peça dele, "Quase Infinito", baseada em contos de Jorge Luis Borges. "Achei que poderia tirar algo dali", disse Stoklos, que também dirige o solo ao lado da atriz Alessandra Maestrini. "Ele imediatamente entrou em modo de interpretação e foi escrevendo seu próprio texto a partir do que eu enviei", acrescentou.
Maestrini define Lorenzon como um artista do espaço, que une artes cênicas e plásticas. "Ele é muito inovador, genial mesmo", afirmou. Ela trabalha com o ator aspectos como voz, movimentos, interpretação e presença cênica.
A psicanalista Renata Zambonelli, que assina a dramaturgia, trouxe referências como os filmes "O Cavalo de Turim", de Béla Tarr, e "Eo", de Jerzy Skolimowski, além da tese da filósofa Donna Haraway sobre a não separação entre natureza e cultura. "A peça foi do capítulo do Nietzsche para um olhar sobre a violência humana e a possibilidade de ternura também", afirmou Lorenzon.
O espetáculo busca uma possibilidade de esperança ao final, com uma obra do artista alemão Dominic Kießling — uma espécie de água viva manipulada em cena, com coreografia que remete à continuidade da vida. "Vivemos como se fôssemos completamente descolados da natureza, como se só existisse a política entre os homens e chegamos em um estado muito perigoso para todas as espécies", disse Renata.
O solo é mais físico do que verbal e tenta não reproduzir o ceticismo nem ceder a uma representação ingênua. A filosofia de Haraway ajudou a evitar tanto o negacionismo quanto a paralisia diante da ruína. "A ideia é a do borramento das fronteiras entre espécies", explicou a psicanalista. O espetáculo parte de uma figura dominadora que desmorona e dança com a escultura em formato de água viva, que pode ser vista também como um cavalo simbólico.
Lorenzon afirma gostar da respiração da obra: "É uma coisa viva, uma membrana com fronteiras que dançam, enchem e esvaziam de ar, é fluída". A expectativa é que os espectadores enxerguem seu próprio cavalo — em um campo estrelado, numa baia vermelha, morto, chicoteado ou chicoteando.
O solo marca o retorno de Lorenzon ao Festival d'Avignon, onde em 2015 interpretou o papel principal em "Nijinsky - Minha Loucura é o Amor da Humanidade". Em setembro, a peça estreia no Sesc Ipiranga, em São Paulo, com ingressos ainda não anunciados.
Com informações de Folha — Ilustrada.