Um conjunto de reportagens do Intercept Brasil aponta que, sob o discurso de revitalização e modernização, diversas capitais brasileiras têm executado projetos urbanos que resultam na expulsão de moradores de baixa renda das áreas centrais. O modelo, que envolve parcerias público-privadas e concessões, é criticado por privilegiar o capital imobiliário e aprofundar a segregação espacial.

Wi-Fi público e uso de dados pessoais

Em São Paulo, a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB) firmou um contrato de R$ 108 milhões com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) para implementar Wi-Fi gratuito na cidade. De acordo com a apuração, após firmar o acordo, o ICB contratou uma empresa para utilizar os dados captados dos usuários para marketing digital, o que viola a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A relação entre o poder público e a ONG exemplifica, segundo o Intercept Brasil, como espaços e serviços públicos são instrumentalizados para gerar lucro privado.

"Times Square" paulista suspensa pela Justiça

Outro projeto, o Boulevard São João, previa a instalação de telões de LED na intersecção das avenidas São João e Ipiranga, além de eventos periódicos, seguindo o modelo de ocupação do espaço público pela iniciativa privada já estimulado pela prefeitura e pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A Justiça suspendeu o empreendimento. Apesar da Lei Cidade Limpa, que regula a poluição visual em São Paulo, críticos apontam que brechas legais vêm sendo exploradas para permitir a publicidade extrema em espaços públicos.

Favela do Moinho: remoção e descumprimento de promessas

Na capital paulista, a gestão estadual de Tarcísio de Freitas tratou a remoção de moradores da Favela do Moinho como parte de um plano de revitalização da região central. O Intercept Brasil, por meio da Lei de Acesso à Informação, verificou que, das 854 famílias que viviam no local, apenas 227 receberam moradia definitiva. Outras recebem auxílio-moradia para aluguel ou desapareceram do monitoramento governamental. Enquanto isso, o governo realizou leilão para escolher o consórcio privado que executará um complexo administrativo no terreno, com investimento de R$ 6 bilhões e gestão por 30 anos. O consórcio MEZ-RZK Novo Centro, formado por cinco grandes empresas, ficará com a área.

Distrito Guararapes, em Recife: moradias caras e pequenas

No Recife, a prefeitura apresentou o projeto "Distrito Guararapes", uma concessão privada desenvolvida em parceria com o BNDES e o Instituto Jaime Lerner. Segundo matéria do site Marco Zero, a revitalização prevê 873 apartamentos com área média de 35 m², ao custo de aproximadamente R$ 310 mil cada – valor de R$ 8.770 por metro quadrado, acima da média da cidade. Apesar de incluir o programa Minha Casa Minha Vida, o projeto é direcionado às faixas 3 e 4, que atendem famílias com renda mensal mais alta. Críticos apontam que a precificação e o tamanho reduzido das unidades favorecem investidores em vez de moradores de baixa renda.

Modelo de cidade que privilegia o capital

O contexto geral, conforme o Intercept Brasil, reflete um padrão de urbanização que, embora formalmente dotado de planos e leis, não os implementa de forma democrática. A urbanista Ermínia Maricato, citada na reportagem, afirma que o planejamento urbano no Brasil praticamente não existe. Em vez disso, prefeitos e governadores, aliados ao capital imobiliário, promovem obras de infraestrutura e iniciativas que trazem melhorias estéticas, mas elevam o custo de vida, padronizam o espaço e intensificam a segregação.

"Conceder partes da cidade à iniciativa privada não é um gesto neutro. Concessões moldam usos, preços, permanências e expulsões", afirmou o jornalista e ex-vereador Ivan Moraes, em declaração reproduzida pela reportagem.

Adaptação climática negligenciada

A reportagem também relaciona o modelo urbano à falta de adaptação climática. As chuvas em Pernambuco, que deixaram áreas de Olinda alagadas e causaram mortes na região metropolitana de Recife, são citadas como exemplo da desastrosa conexão entre mudanças climáticas e ausência de infraestrutura inclusiva.

Déficit habitacional e qualidade de vida

Embora o déficit habitacional brasileiro tenha apresentado queda recente, a reportagem defende que a análise não pode ser apenas quantitativa. Moradias precisam ser de qualidade, conectadas a equipamentos públicos e inseridas em espaços comuns que permitam viver bem. As lutas por direito à cidade, segundo o texto, devem vir acompanhadas de reforma urbana e agrária, e de um redirecionamento do investimento público para além dos interesses do mercado.