No início do século 20, partos hospitalares nos Estados Unidos frequentemente envolviam o chamado "sono crepuscular", um coquetel de medicamentos que deixava a mulher inconsciente. Se ela se debatesse, podia ser amarrada à cama, sem voz no processo. Hoje, essa prática causa repulsa, mas especialistas apontam que o tratamento dado à menopausa pode gerar reação semelhante no futuro.
Segundo relato publicado originalmente no The New York Times, a experiência de mulheres na menopausa nos consultórios médicos é marcada por decepção. Quase uma em cada três mulheres norte-americanas com mais de 40 anos apresenta sintomas severos — insônia, dores articulares, palpitações e falhas de memória —, mas muitas saem sem diagnóstico, tratamento ou plano de ação.
Os sintomas não são apenas incômodos passageiros. As mudanças hormonais aumentam o risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e alguns tipos de câncer. A Clínica Mayo estima que os sintomas relacionados à menopausa custem 26 bilhões de dólares por ano aos EUA em despesas médicas e tempo de trabalho perdido.
Apesar disso, apenas cerca de 25% das mulheres na menopausa no país recebem tratamento. A terapia hormonal, considerada a solução mais eficaz para controle dos sintomas, é utilizada por menos de 5% das mulheres na pós-menopausa. Há também disparidades raciais: mulheres brancas têm mais que o dobro de probabilidade de usar terapia hormonal em comparação com negras e hispânicas.
Lacuna na formação médica
Um dado alarmante revela a raiz do problema: menos de um terço dos programas de residência em ginecologia e obstetrícia nos EUA oferece currículo sobre menopausa. Os próprios especialistas em saúde feminina muitas vezes não são preparados para lidar com essa fase da vida.
A autora do artigo, que se dedica à saúde da mulher há 25 anos, relata que, mesmo com acesso a atendimento de excelência, desconhecia muitos aspectos da menopausa ao vivenciá-la. Ela destaca que sintomas como insônia podem ter consequências duradouras se não tratados, elevando o risco de perda cognitiva e diabetes tipo 2.
Investimentos e propostas
Diante desse cenário, a filantropa anuncia a expansão de seus investimentos em saúde da mulher, com novos financiamentos para cuidados na meia-idade e menopausa. O aporte eleva o total destinado à saúde feminina para mais de 600 milhões de dólares nos últimos dois anos.
Ela defende uma "revolução da menopausa" baseada em três pilares: melhor formação de profissionais de saúde, ação de formuladores de políticas públicas — incluindo proteções trabalhistas semelhantes às da gravidez — e campanhas educativas para reduzir disparidades. Além disso, cobra mais pesquisas: para cada dólar gasto em pesquisa médica no mundo, apenas cinco centavos vão para a saúde da mulher.
O artigo reforça que, embora haja mais diálogo sobre o tema do que na geração anterior, solidariedade não substitui mudanças estruturais no sistema de saúde.
Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.