O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) planeja redirecionar produtos brasileiros para outros mercados como forma de mitigar os efeitos de um novo tarifaço dos Estados Unidos. A medida, no entanto, encontra obstáculos em setores como máquinas e equipamentos, têxteis e pescados, que dependem de especificações técnicas, preferências culturais e compradores dispostos a pagar mais.
Nesta semana, o Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR) recomendou a adoção de tarifas adicionais sobre produtos comprados do Brasil. A primeira investigação, relacionada a supostas práticas “desleais” brasileiras, sugere uma taxa de 25%. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a cobrança pode afetar 21% da pauta exportadora brasileira para os EUA.
Se confirmadas, as tarifas devem entrar em vigor em julho. No mesmo mês, expira o prazo de uma tarifa global de 10% adotada por Donald Trump em fevereiro, depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a taxação aplicada no ano passado com base em lei de emergência nacional.
Lula afirmou que pretende negociar com Trump, mas disse que o Brasil buscará outros compradores se os EUA não quiserem comprar produtos brasileiros. “Nós não vamos ficar chorando. Nós vamos procurar outros parceiros. Se ele (os EUA) não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar. A gente não vai ficar reclamando. Se não quiser investir aqui, nós vamos procurar outro”, declarou.
Em entrevista ao Globo, o economista João Carmo, da 4Intelligence, afirmou que o Brasil tem capacidade de redirecionar exportações, mas alertou para impactos setoriais. “Eu não duvido da capacidade que o país tem de redirecionar, por isso esperamos que o impacto na balança não seja tão grande. Mas setorialmente é mais difícil, setores que têm menor participação e menor poder vão ter mais dificuldade”.
Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, disse que a diversificação deve ser complementar, não substituta ao mercado estadunidense. Segundo a entidade, a cada R$ 1 bilhão exportado aos EUA, são gerados 24,3 mil empregos no Brasil. Para destinos asiáticos, a média é de 16 mil.
“Pela qualidade de exportações com os EUA, não podemos nos dar ao luxo de virar a página e não trabalhar para eliminar essas barreiras que estão prejudicando as exportações, de alguma maneira, já prejudicaram, já temos evidências. A prioridade é eliminar as barreiras enquanto se trabalha em frentes complementares de diversificação de parcerias que sejam capazes de trazer essa complexidade”.
Estudo do BNDES mostra que, em 2025, as vendas para outros países cresceram 3,5%, mesmo com queda de 6,6% nos embarques aos EUA. Mas setores específicos tiveram perdas. Peixes e crustáceos recuaram 53% nas vendas ao mercado estadunidense e 18% no total mundial. Madeira caiu 50% nos EUA e 22% no mundo.
O presidente da Abipesca, Eduardo Lobo, afirmou que o setor ficou novamente sem competitividade. “Essa taxação coloca o setor novamente sem competitividade para os EUA, em relação aos competidores da América Central e o Caribe. Diferentemente de todos os países que foram taxados pelos EUA, a gente tem 37,5%, a maioria dos países vai ter uma taxação de 12,5%. Ainda não temos certeza se a tarifa de 10% (hoje vigente) vence ou se soma. Pode ser 47,5%, muito parecido com os 50% do ano passado”.
Na indústria de máquinas, José Velloso, da Abimaq, disse que o produto vendido aos EUA é específico e não pode ser simplesmente transferido para outros mercados. “Se não tivéssemos as tarifas, teríamos provavelmente R$ 500 milhões a mais de exportações em 2025. A participação dos EUA nas exportações do setor caiu de 26,9% em 2024 para 23,3% no ano passado”.
Com informações de Diário do Centro do Mundo.