As maiores usinas hidrelétricas da Amazônia estão cada vez mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas, e Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, é um exemplo claro dessa vulnerabilidade. Dois estudos divulgados no final de 2025 reforçam a necessidade de revisão do planejamento energético brasileiro diante de secas mais intensas e prolongadas.

Estudos apontam queda drástica na geração de energia

Um relatório da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) alerta que as hidrelétricas amazônicas podem perder até 40% da capacidade de geração nos próximos 20 a 30 anos se o planejamento continuar baseado em dados históricos de vazão. A bacia do Xingu deve enfrentar estações secas muito mais longas, com vazões máximas caindo pela metade e períodos de estiagem que podem chegar a 150 dias até o fim do século.

Outro estudo, do Escritório Federal de Pesquisa Energética (EPE), vinculado ao Ministério de Minas e Energia, conclui que compensar a menor confiabilidade das hidrelétricas exigirá investimentos de R$ 144 bilhões em fontes alternativas, como solar, eólica e armazenamento, além da implantação de 121 gigawatts de capacidade adicional.

Realidade atual já preocupa

Em 2024, durante o pico da seca entre setembro e novembro, Belo Monte gerou em média apenas 145 megawatts por dia, cerca de 1% de sua capacidade instalada de 11.233 megawatts, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico. Saulo Aires, coordenador de mudanças climáticas da ANA, afirmou que "a realidade hidrológica já mudou" e que o desempenho reflete a seca mais severa desde 1950.

Rodrigo Paiva, professor do IPH/UFRGS e coautor do estudo, destacou que as projeções para o Xingu e o Tapajós indicam "grande redução das vazões" mesmo em cenários moderados de emissões. Ele alertou que, se houver transformação da floresta em savana, os impactos podem ser ainda piores.

Modelo de usina a fio d'água aumenta vulnerabilidade

Belo Monte opera como usina a fio d'água, sem grande reservatório, modelo escolhido para reduzir a área alagada e os danos ambientais, mas que a deixa altamente exposta às secas. Em 2024, a usina não atingiu sua projeção de geração em nenhum dia. No fim de agosto, apenas uma das 18 turbinas estava em funcionamento.

Rafael Kelman, diretor da consultoria PSR e coordenador do estudo da EPE, lembrou que estudos de 2010 já sugeriam que Belo Monte deveria ser cerca de 30% menor. "Considerando as mudanças climáticas, provavelmente deveria ter sido ainda menor", disse. Ele também apontou a baixa confiabilidade dos dados hidrológicos de longo prazo para o Xingu.

Operadora defende importância estratégica

A Norte Energia, operadora de Belo Monte, contestou a ideia de obsolescência. Em nota, afirmou que a usina é fundamental para o sistema elétrico e que, na virada de 2025 para 2026, gerou em média 8,55 gigawatts, equivalentes a 9,3% do consumo nacional. A empresa destacou investimentos de mais de R$ 8 bilhões em mitigação ambiental, incluindo R$ 1,4 bilhão em projetos indígenas.

Moradores e cientistas, porém, argumentam que a vazão definida pelo hidrograma de consenso é insuficiente para manter o fluxo natural do rio, causando colapso das populações de peixes. O licenciamento da usina foi marcado por disputas judiciais e alegações de descumprimento de condicionantes, com 26 ações do Ministério Público Federal.

Adaptação é inevitável, dizem pesquisadores

Paiva afirmou que "esse projeto não vai entregar o que foi prometido" e que é preciso adaptar a operação e incorporar cenários climáticos. "A energia garantida do passado não existe mais", disse. Kelman acrescentou que o aumento das temperaturas elevará a demanda por eletricidade, criando "uma pressão dupla sobre o sistema".

Para Aires, da ANA, o maior erro é olhar para o passado no planejamento hídrico. "O futuro não vai repetir o passado. Já chegamos a um ponto de não retorno em termos de hidrologia", concluiu.

Com informações de Mongabay Brasil.