O segundo-sargento do Exército Estácio Leite da Silva Filho, integrante do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), foi flagrado por agentes da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) transportando uma arma de fogo registrada em nome do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante uma blitz no Pistão Norte, em Taguatinga. O episódio ocorre em um momento judicial crítico para o ex-mandatário, que cumpre prisão domiciliar por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

O incidente

De acordo com informações da Revista Fórum, o sargento alegou aos policiais que havia retirado o armamento temporariamente para consertar uma falha mecânica no percussor e que o devolveria a Bolsonaro no dia seguinte. A justificativa esbarra no fato de o ex-presidente estar em prisão domiciliar, o que tem gerado debate sobre a regularidade do armamento circulando com terceiros. Criminalistas ouvidos pela publicação apontam que o flagrante pode levar até mesmo à revogação da prisão domiciliar de Bolsonaro, agravando sua situação penal.

Vínculo com o ex-presidente

A relação de Estácio Leite com Bolsonaro vai além da informalidade. Ele compõe a estrutura pública de apoio a ex-mandatários, um benefício custeado integralmente com recursos federais. Sua nomeação para o cargo de assistente técnico (código CCE 2.05) foi garantida ainda na transição de governo, por meio de portaria da Secretaria-Geral da Presidência da República publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 27 de dezembro de 2022.

O nível de confiança depositado no militar rendeu-lhe acesso ao círculo íntimo de Bolsonaro e a deslocamentos bancados pelo Estado. Em novembro de 2023, um despacho da Casa Civil autorizou, com ônus para os cofres públicos, que o sargento acompanhasse Bolsonaro na viagem oficial a Buenos Aires, na Argentina, para a posse do presidente Javier Milei.

Já em abril de 2026, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou formalmente o cadastro de quatro novos agentes do GSI para atuarem no reforço da segurança perimetral da residência de Bolsonaro, que também teve o espaço aéreo restrito contra o uso de drones. O nome de Estácio Leite da Silva Filho figurava na lista deferida pela Corte.

Conexão com investigações

O sargento já era conhecido dos órgãos de controle. Seu nome desponta nas investigações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que miraram a teia financeira dos chamados “kids pretos”, militares do Comando de Operações Especiais (Copesp) investigados pela tentativa de golpe de Estado e pelo monitoramento clandestino do ministro Alexandre de Moraes.

Dados financeiros enviados à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Atos Golpistas e revelados por investigações da Agência Pública detalharam repasses feitos a partir de contas de Bolsonaro para militares de sua estrita confiança entre maio de 2022 e julho de 2023. Nesse levantamento, Estácio Leite figura como destinatário direto de R$ 1,9 mil transferidos pelo ex-presidente. A mesma planilha listou pagamentos ao coronel Marcelo Câmara, figura central da trama golpista e do aparelhamento da inteligência, além de repasses a outros agentes lotados na segurança presidencial, como o segundo-sargento Jossandro da Silva.

Trajetória militar

Natural de Paranaguá, no litoral do Paraná, Estácio construiu uma trajetória militar de longa data até chegar à antessala do poder. Promovido a cabo em 1992 e a segundo-sargento em 2013, o militar acumula participações em missões de paz das Nações Unidas. Segundo registros oficiais do Exército e do DOU, o sargento integrou o contingente brasileiro enviado ao Timor Leste durante a transição entre 1999 e 2000, e participou da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) em 2014.

No âmbito político, foi condecorado com o título de Cidadão Honorário de Brasília e coleciona indicações legislativas em sua cidade natal. Na segurança do alto escalão, atuou no Ministério da Defesa a partir de 2009 e fez parte da segurança pessoal do comandante do Exército entre 2015 e 2020, até ser alocado no GSI no último ano do governo Bolsonaro. De lá, passou a atuar como sombra oficial do ex-presidente, cruzando do organograma público para os inquéritos da Polícia Federal.