O escritor italiano Sandro Veronesi, autor do best-seller O colibri, esteve no Brasil para a Feira do Livro do Pacaembu e lançou Setembro negro e a reedição de Caos calmo, ambos traduzidos por Karina Jannini pela Autêntica Contemporânea. Em entrevista à Revista Cult, Veronesi discute como sua formação em arquitetura e sua paixão pelo xadrez influenciam sua literatura.
“Encontro as regras para a minha literatura nos assuntos que estudei: arquitetura e xadrez”, afirma. Para ele, a inspiração literária passa pela ideia de construir espaços comuns de habitação, enquanto a estrutura do romance remete à movimentação de peças de xadrez, com regras rígidas e combinações quase infinitas.
Influência latino-americana
Veronesi encontrou na literatura latino-americana a confiança para enfrentar o que chama de pensamento “eurocêntrico demais” na Itália. Autores como Mario Vargas Llosa, Borges, Galeano e Guimarães Rosa foram fundamentais. “Na Europa, especialmente na Itália, havia uma ideia muito contrária ao romance, propagada pelas melhores mentes de nossa literatura, que diziam que o gênero estava superado”, explica. “Eu via essa ideia como algo eurocêntrico demais.”
Psicanálise e literatura
Veronesi pratica psicanálise há 25 anos, mas ressalta que a escrita não faz parte do processo analítico. “O movimento vai da análise para a literatura, e não da literatura para a análise”, diz. Ele cita Freud, Lacan e Jung como influências indiretas, mas afirma que nunca pensou que a escrita pudesse ser parte de um processo psicanalítico.
O papel do tédio e da infância
O autor critica a ausência de tédio na infância contemporânea. “Há cerca de 20 anos, as crianças tinham um inimigo em comum: o tédio. Era terrível, mas você construía seus próprios gostos”, recorda. “Meus filhos nunca sentem tédio; não o sentem como um inimigo em comum.”
Xadrez como metáfora literária
Veronesi compara a abertura de um romance a uma partida de xadrez: “É importante ‘liberar as peças’, mantê-las prontas para a ação. Não é especialmente importante a combinação dos lances, mas sim colocar o jogo em movimento”, explica. Ele cita Anna Kariênina como exemplo de protagonista apresentada no início, alertando que ignorar personagens é como mover a rainha muito cedo, sem proteção.
Com informações de Revista Cult.