A Rússia, em meio às tensões com o Ocidente, intensifica sua estratégia de usar a energia nuclear como ferramenta de política externa e aponta o Brasil como parceiro estratégico. A ofensiva é liderada pela estatal Rosatom, que combina interesses econômicos, tecnológicos e geopolíticos.
Na última semana de maio, durante reunião da Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira de Comércio e Cooperação Econômica, Científica e Técnica em Brasília, o ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, afirmou que Moscou busca ampliar a parceria nuclear com o Brasil. Segundo ele, a Rosatom atende às necessidades das usinas nucleares brasileiras e fornece radioisótopos para pesquisa e saúde. Reshetnikov destacou perspectivas na construção de novas unidades de energia, tanto de grande quanto de pequena capacidade.
A parceria já vem sendo aprofundada. No fim de 2022, a subsidiária Tekhsnabexport (TENEX) firmou contrato com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para serviços de enriquecimento de urânio até 2027. Outra subsidiária fornece produtos isotópicos para medicina nuclear.
Segundo relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a Rússia busca parcerias nucleares com países do Sul Global que mantêm boas relações com Moscou, diante do fechamento de portas no Ocidente. Após a guerra na Ucrânia, a Finlândia rompeu contrato com a Rosatom para a usina de Hanhikivi. Em 2024, os EUA aprovaram lei proibindo importações de urânio russo, com isenções até 2027. O CSIS informou que a Rússia tem pelo menos 20 unidades nucleares em construção em sete países.
O coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais, afirmou que a força da Rússia no setor nuclear ganha dimensões geopolíticas. “A Rússia domina 44% da capacidade global de enriquecimento de urânio”, disse, destacando que o país usa essa capacidade como ferramenta de política externa.
Sandro Teixeira Moita, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), afirmou que o mercado de energia nuclear está em grande competição, principalmente entre russos e franceses. “Um fruto da guerra na Ucrânia é que a Rússia busca explorar parcerias no Sul Global para compensar a perda de acesso aos mercados do G7”, disse.
Coutinho afirmou que a parceria nuclear com a Rússia já se tornou “um projeto do Estado brasileiro”, citando tratativas nos governos de Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Moita apontou que o interesse russo pode incluir acesso à tecnologia brasileira de centrífugas, que enriquecem urânio com custo até 80% mais barato que as americanas ou francesas.
Uma eventual expansão da parceria pode expor o Brasil a medidas dos EUA. O presidente Donald Trump já ameaçou tarifas de 100% sobre produtos russos e taxas secundárias a nações que compram da Rússia. A Índia foi taxada em 25% por comprar petróleo russo, mas depois teve as tarifas reduzidas ao concordar em parar as compras. Moita alertou que sanções podem ser aplicadas ao Brasil “a depender de como for estruturada essa parceria”.
Os analistas divergem sobre possível cooperação militar. Moita não vê objetivo russo nessa área, pois as delegações são de tecnocratas, e as potências não querem proliferação nuclear. Coutinho, porém, afirmou que os russos “sempre” buscam estender parcerias para fins militares, mas isso dependeria do interesse brasileiro e de negociações em alto nível.
Com informações de Gazeta do Povo.