O Rio Grande do Sul, ainda em recuperação das enchentes de maio de 2024 que mataram 181 pessoas, se prepara para um El Niño intenso que, segundo meteorologistas, pode trazer chuvas extremas neste ano. Enquanto isso, estoques globais de alimentos próximos a níveis recordes podem limitar os impactos na agricultura mundial.

Previsão de El Niño intenso

O fenômeno El Niño, que tipicamente provoca calor e seca em partes da Ásia e chuvas fortes nas Américas, deve se intensificar e superar eventos recordes anteriores, segundo especialistas. O último super El Niño, em 2015/16, trouxe secas, inundações e temperaturas recordes, prejudicando a produção agrícola. O de 1997/98 causou danos generalizados, com inundações e incêndios florestais.

Estoques globais como amortecedor

“Há um lado positivo no que diz respeito aos estoques globais e às colheitas recentes de arroz e outros cereais”, afirmou Shirley Mustafa, economista da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Ela acrescentou que os estoques mundiais provavelmente amortecerão parte do impacto do El Niño.

Os estoques globais de trigo devem atingir 279,95 milhões de toneladas métricas no início do ano agrícola em 1º de julho, o maior nível em cinco anos, segundo dados do USDA. A Rússia, maior exportadora mundial, colhe uma safra excepcional, embora a safra dos EUA preocupe. As reservas mundiais de arroz alcançaram um recorde de 196,16 milhões de toneladas no início de 2026, com a Índia mantendo estoques cinco vezes superiores à meta governamental e a Indonésia também com estoque recorde.

Recuperação no Rio Grande do Sul

Em Porto Alegre, os escombros do desastre de 2024 — incluindo casas demolidas — ainda são visíveis. A moradora Marilian Fontoura, no bairro Sarandi, relatou: “As pessoas estão com medo. Se chover de novo, se vier outra chuva forte, outra enchente, o que vai acontecer? Vamos perder tudo de novo.” Manchas de água até o teto marcam o nível da enchente em sua casa.

Preparativos e temores

O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), afirmou que a cidade está “mais segura do que em 2024” e que trabalha intensamente para reparar estações de bombeamento, reconstruir diques e melhorar comportas. Nesta semana, a concessionária de água e esgoto selecionou um consórcio para obras de proteção contra enchentes financiadas pelo estado, no valor de R$ 24,2 milhões. “Especificamente para o El Niño, estamos acelerando alguns projetos imediatos que teriam sido construídos mais tarde”, declarou Melo.

Moradores, porém, reclamam de projetos paralisados, como um dique próximo parado devido a disputas de desapropriação. O governo estadual investe R$ 38 milhões em um centro de logística para desastres e R$ 33 milhões em um programa de preparação para o El Niño, visando proteger municípios vulneráveis.

O impacto do El Niño dependerá da preparação, incluindo melhorias em irrigação e bombeamento, segundo Sutarto Alimoeso, presidente da Associação de Moinhos e Empresários do Arroz da Indonésia. Enquanto Austrália, Sudeste Asiático e Índia são as áreas mais ameaçadas, China, Mar Negro e Europa devem enfrentar condições menos severas, conforme artigo do Parlamento britânico.