A retatrutida, molécula experimental aplicada uma vez por semana, apresentou reduções de peso que se aproximam dos resultados da cirurgia bariátrica em estudos de fase 3. Em pessoas com diabetes tipo 2, o tratamento também promoveu queda expressiva da glicose e perda de peso raramente observada nessa população. Os dados foram divulgados durante o congresso anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), em Nova Orleans, nos Estados Unidos.
Mecanismo de ação triplo
A retatrutida é a primeira medicação a atuar simultaneamente em três alvos metabólicos: GLP-1, GIP e glucagon. Por imitar esses hormônios, é classificada como agonista triplo. Enquanto a semaglutida (Ozempic) age apenas no GLP-1 e a tirzepatida (Mounjaro) atua em GLP-1 e GIP, a retatrutida adiciona a ação sobre o glucagon, mecanismo que pode aumentar o gasto energético, reduzir a ingestão de alimentos e melhorar a saúde metabólica.
Perda de peso expressiva
O estudo TRIUMPH-1 incluiu 2.339 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma complicação relacionada ao peso, sem diabetes. Os participantes receberam placebo ou doses semanais de 4, 9 ou 12 miligramas de retatrutida, junto com orientações de estilo de vida. Após 80 semanas, a redução média de peso foi de:
- 19% com 4 mg;
- 25,9% com 9 mg;
- 28,3% com 12 mg;
- 2,2% com placebo.
Na dose mais alta, a perda média foi de 31,9 quilos. Além disso, 45,3% dos participantes que receberam 12 mg eliminaram pelo menos 30% do peso corporal, e mais de um quarto perdeu 35% ou mais. Em uma extensão do estudo com 532 voluntários com IMC igual ou superior a 35 kg/m², após 104 semanas a redução média chegou a 30,3% do peso, equivalente a 38,5 quilos, entre os que receberam a dose mais alta tolerada.
Controle glicêmico em diabéticos
O estudo TRANSCEND-T2D-1 avaliou 537 adultos com diabetes tipo 2 sem controle adequado da glicose apenas com dieta e exercício. Os participantes tinham, em média, 48,8 anos e conviviam com o diagnóstico havia cerca de 2,5 anos. Receberam placebo ou doses semanais de 4, 9 ou 12 mg de retatrutida por 40 semanas. A hemoglobina glicada caiu até 1,94 ponto percentual com a retatrutida (valor inicial médio de 7,9%), contra 0,81 ponto com placebo. Não houve episódios de hipoglicemia grave. A redução de peso foi de 11,5% (4 mg), 13,9% (9 mg) e 15,3% (12 mg), ante 2,6% com placebo. Em análise de eficácia entre participantes que seguiram o tratamento conforme previsto, a perda chegou a 16,8%, equivalente a 16,6 quilos.
Efeitos adversos
Os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais: náusea, diarreia, constipação e vômitos. No TRIUMPH-1, a interrupção do tratamento por efeitos adversos ocorreu em 4,1% (4 mg), 6,9% (9 mg) e 11,3% (12 mg) dos participantes, contra 4,9% no placebo. Também foram relatados episódios de disestesia (alteração da sensibilidade da pele), geralmente leve ou moderada.
Próximos passos e alerta
Resultados de fase 3 representam um passo decisivo, mas ainda é necessário avaliar a segurança em diferentes grupos, riscos menos frequentes e efeitos de longo prazo para obter aprovação regulatória. A Anvisa já determinou a apreensão e proibição de produtos anunciados como retatrutida no Brasil, e operações policiais identificaram canetas clandestinas de origem desconhecida. A molécula ainda não foi aprovada para uso comercial e só deve ser utilizada em estudos clínicos autorizados.
Com informações de Veja.