O comissário Stephen Schneck, ao encerrar seu mandato na Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF), apresentou um panorama preocupante sobre o declínio da liberdade religiosa no mundo. Em entrevista à EWTN News, Schneck afirmou que a situação está pior do que há uma década e que as violações contra pessoas de fé são cada vez mais graves.
O relatório de 2026 da USCIRF recomendou que 18 países fossem classificados como "países de preocupação particular" (CPCs), designação aplicada aos governos considerados os piores violadores da liberdade religiosa. A lista inclui 12 nações já designadas pelo Departamento de Estado dos EUA em dezembro de 2023: Birmânia, China, Cuba, Eritreia, Irã, Nicarágua, Coreia do Norte, Paquistão, Rússia, Arábia Saudita, Tajiquistão e Turcomenistão. Também figuram a Nigéria, designada pelo presidente Donald Trump em 2025, e cinco recomendações adicionais: Afeganistão, Índia, Líbia, Síria e Vietnã.
Índia sob críticas por nacionalismo hindu
Schneck destacou que a Índia está entre os piores países em termos de liberdade religiosa, segundo análises da comissão na última década. "Desde 2020, talvez 2019, a comissão vem pedindo ao governo dos Estados Unidos que designe a Índia como um CPC", disse. Ele classificou a situação como "particularmente trágica" por se tratar de uma nação com tradições democráticas e berço de diversas religiões.
O principal fator apontado para a crise é o nacionalismo religioso, especialmente o hindu, promovido pelo partido Bharatiya Janata Party (BJP), do primeiro-ministro Narendra Modi. Schneck mencionou episódios de violência comunitária desde a independência do país, mas ressaltou que a violência de multidões contra minorias religiosas tem sido cada vez mais tolerada ou até incentivada, com impunidade legal sob o governo do BJP.
O comissário lamentou que o Departamento de Estado nunca tenha explicado completamente a recusa em acatar a recomendação sobre a Índia, sugerindo que razões geopolíticas e comerciais possam influenciar a decisão. "A Índia é um país particularmente importante, posicionado contra a China na política geopolítica e relevante para fins comerciais dos Estados Unidos", afirmou.
China continua na lista e preocupa comissão
A China permanece como CPC desde 1999, e a USCIRF mantém a recomendação. Schneck expressou grande preocupação com a repressão religiosa no país, que atinge não apenas indivíduos, mas populações inteiras, como muçulmanos uigures, budistas tibetanos e cristãos. "Até nossa própria Igreja Católica está sob o olhar atento da China", alertou.
Ele mencionou que a comissão pediu a libertação do ativista Jimmy Lai e de milhões de outros prisioneiros políticos, especialmente após a recente viagem de Trump à China, onde o tema foi discutido com o presidente Xi Jinping.
Legado e futuro do comissário
Schneck, nomeado em 2022 pelo presidente Joe Biden e ex-presidente da USCIRF no mandato 2024-2025, descreveu o trabalho na comissão como o "ápice" de sua carreira, mas emocionalmente desgastante. "Você conversa com pessoas cujos parentes foram mortos, que acabaram de sair da prisão, vai a campos de refugiados e vê situações absolutamente terríveis", relatou.
Católico, ele afirmou que sua fé foi fortalecida pela experiência e que se sentiu chamado a defender a liberdade religiosa conforme o documento Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II. Após deixar a USCIRF, Schneck continuará atuando em organizações como a Catholic Climate Covenant e a Catholic Mobilizing Network, dedicadas ao cuidado com a criação e ao fim da pena de morte.
Com informações de Gazeta do Povo.