Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado nesta segunda-feira (8) alerta que os oceanos enfrentam uma crise cada vez mais grave, com aquecimento e elevação do nível do mar em ritmo acelerado, diminuição da cobertura de gelo e ecossistemas marinhos sob forte pressão. O documento, resultado de cinco anos de trabalho de 600 cientistas de todo o mundo, detalha os impactos das mudanças climáticas, da poluição e da pesca predatória nos oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta.

Crise oceânica em números

De acordo com a terceira Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA, na sigla em inglês), cerca de 16% do aumento total de calor dos oceanos registrado desde 1955 ocorreu apenas a partir de 2018. Os oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor e 30% do CO₂ liberado pela queima de combustíveis fósseis. O nível do mar subiu de 2,0 mm por ano antes de 2015 para 4,3 mm em 2023. Embora pareçam pequenos, esses milímetros se multiplicam rapidamente, segundo Ian Butler, ecologista marinho australiano e coordenador do grupo de especialistas da WOA.

Impactos nos polos e na vida marinha

O relatório aponta que o oceano Ártico pode ficar sem gelo durante setembro em meados do século, com possibilidade de condições sem gelo já na década de 2030 em todos os cenários de emissões. "Estamos seriamente considerando um oceano Ártico sem gelo durante parte do ano dentro de 10 ou 20 anos", afirmou Butler. O derretimento no polo norte também altera a geopolítica, abrindo novas rotas marítimas e intensificando a competição entre Estados Unidos, Rússia e China. No polo Sul, o gelo marinho antártico, que cresceu gradualmente entre 1979 e 2015, declinou rapidamente desde 2016.

As mudanças climáticas estão forçando espécies marinhas a migrar para águas mais frias ou profundas. "Algumas não têm futuro algum porque não têm para onde ir", disse Butler. Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais ameaçados, com ondas de calor e tempestades repetidas deixando pouco tempo para recuperação. A WOA alerta que 90% dos recifes podem desaparecer se o aquecimento ultrapassar 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

Poluição por plásticos e mineração em águas profundas

O relatório pede redução na produção de plásticos — tema paralisado em negociações internacionais. A cada ano, 52,1 milhões de toneladas de resíduos plásticos são despejadas no oceano, totalizando cerca de 24,4 trilhões de partículas de microplástico, que afetam mais de 4.000 espécies marinhas. O documento também destaca preocupações com a mineração em águas profundas, ainda sem produção comercial, mas que, segundo críticos, pode sufocar a vida marinha com resíduos e perturbar migrações com ruído de maquinário.

Apelo por ação global e reações

"O oceano é a base da vida na Terra. Mas sua saúde está em grave risco, à medida que ecossistemas e habitats se aproximam ou ultrapassam pontos críticos de ruptura", afirma a WOA. O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou: "Não podemos continuar tratando o oceano como se fosse ilimitado. Precisamos construir uma nova relação com o oceano: fundamentada na ciência, enquadrada pelo direito internacional e baseada na responsabilidade compartilhada." O relatório saúda a entrada em vigor, em janeiro, de um tratado da ONU para proteger a vida marinha em águas internacionais, considerado um marco histórico.

O documento foi divulgado dias após o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar a remoção de centenas de instrumentos científicos de águas profundas usados há uma década para monitorar efeitos climáticos. Butler classificou a decisão como uma "enorme lacuna em nossa ciência oceânica de longo prazo". O Greenpeace afirmou em comunicado que o relatório "deve servir como um alerta urgente para que os governos ajam para proteger o oceano".