O escritor Reinaldo Moraes lança o romance 'Noitada' pela editora Todavia durante a Feira do Livro. A obra acompanha o protagonista Kabeto, um escritor habitué da farra paulistana, em uma noite que começa em um táxi parado no trânsito das manifestações de junho de 2013 em São Paulo.

Moraes, que se define como acometido por uma grafomania patológica, encarou o livro como um desafio. 'Ninguém teria saco de ler tantas páginas de um táxi parado no trânsito, então me desafiei a fazer com que uma situação inercial tivesse movimento literário', disse o autor.

A história nasceu em 2013, quando o cineasta Beto Marquez pediu a Moraes uma narrativa para um filme. Inicialmente, Marquez queria adaptar 'Pornopopeia', mas os direitos já haviam sido vendidos. Moraes então criou a história de um escritor em bloqueio criativo que encontra o diário de um anão em uma caçamba e decide plagiar. O roteiro resultou no filme 'Maior que o Mundo', de 2022.

Marquez ficou com os direitos para o cinema, e Moraes manteve os direitos editoriais. O autor planejava publicar o texto em três meses, mas o projeto se estendeu por mais de dez anos. 'Pensei: vou desentortar esse texto, tirar da forma de roteiro e em no máximo três meses publico como livro', contou. Ao chegar a 600 páginas, decidiu fazer uma trilogia. Depois, anunciou uma 'trilogia em dois volumes', mas o segundo volume bateu mil páginas, e ele dividiu o romance em dois: este 'Noitada' e uma obra ainda em produção.

Moraes migrou da Companhia das Letras para a Todavia após a antiga editora sugerir muitas mudanças. 'Porque literatura é que nem sexo: você faz o que quer e o que pode. Nessa eu resolvi mandar para o Flávio Moura [editor da Todavia], que em uma semana fechou o livro', afirmou.

O estilo de Moraes permanece o mesmo: falar de sexo e drogas com refinamento literário. O crítico Roberto Schwarz definiu sua obra como uma 'combinação de registro chulo com escrita elaborada e inventiva'. Moraes diz que sempre achou cenas de sexo em literatura constrangedoras e prefere tratá-las como comédia, inspirado por Charles Bukowski, de quem traduziu 'Mulheres'. 'O sexo é um território de desencontros, desenganos e mal-entendidos que costumo escrever no registro de comédia', explicou.

No táxi, os personagens da classe média artística paulistana se irritam com o trânsito sem entender as Jornadas de Junho, que servem de contraponto narrativo. Moraes optou por comentar o reacionarismo que crescia na sociedade brasileira 'por alto, para não virar o centro de discussão' do romance. Temas sociais despontam na narrativa, como quando Kabeto reflete sobre seu personagem anão: 'Talvez anão de circo não seja mesmo o tipo de personagem literário mais da hora no Brasil de hoje'.

Moraes define seu novo livro como 'uma espécie de playground maluco' do espaço literário contemporâneo, alternando vozes narrativas e inventando palavras-valise.

Com informações de Folha — Ilustrada.