Um estudo publicado na revista Science estimou que as redes subterrâneas formadas por fungos micorrízicos arbusculares têm aproximadamente 110 quatrilhões de quilômetros de extensão. Esse número equivale a 110 vezes 10¹⁵, ou 1 seguido de 15 zeros. Se todos os filamentos fossem dispostos em linha reta, cobririam a distância entre a Terra e o Sol quase 750 milhões de vezes.
O trabalho, liderado por Justin Stewart, da Sociedade para a Proteção de Redes Subterrâneas (SPUN), produziu o primeiro mapa global da distribuição e da massa desses fungos. Eles vivem associados às raízes das plantas há cerca de 475 milhões de anos, em uma parceria na qual as plantas fornecem carbono da fotossíntese e os fungos oferecem água e nutrientes por meio de estruturas microscópicas chamadas hifas.
Dimensões e importância ecológica
Em solos saudáveis, as hifas podem aumentar em até 100 vezes a área de absorção de nutrientes das plantas e fornecer mais de 80% do fósforo necessário ao crescimento vegetal. “É difícil exagerar a importância e a magnitude desses fungos”, afirmou Stewart em comunicado. “Pode haver até 10 metros de rede micorrízica em apenas uma colher de chá de solo.”
Cerca de 70% das espécies de plantas mantêm essa simbiose. Por causa do transporte constante de carbono, água e nutrientes, os pesquisadores descrevem essas redes como uma espécie de “sistema circulatório” do planeta. O mapa foi elaborado com dados de mais de 16 mil amostras de solo ao redor do mundo, modelos de aprendizado de máquina e imagens robóticas de mais de 300 mil hifas cultivadas em laboratório.
Além da extensão, a massa total das redes equivale a aproximadamente 300 megatons de carbono — de quatro a seis vezes a massa de todos os seres humanos vivos. “Com o surgimento de novas tecnologias em imagens de alta resolução, machine learning e robótica, estamos começando a revelar o que há muito tempo estava escondido sob nossos pés”, disse Corentin Bisot, biofísico do instituto AMOLF e coautor do estudo.
Regiões mais importantes e ameaças
O estudo mostrou que as pradarias (campos naturais dominados por gramíneas) concentram cerca de 40% da biomassa mundial desses fungos. No entanto, esses ecossistemas “estão entre os menos protegidos do mundo” e “estão sendo convertidos em áreas agrícolas em ritmo acelerado”, alertam os autores.
A agricultura intensiva reduz a densidade das redes micorrízicas em cerca de 47% em média, em comparação com ecossistemas selvagens. Práticas como aração, uso de fertilizantes e fungicidas prejudicam a parceria entre plantas e fungos. “Muitas práticas agrícolas em larga escala prejudicam as redes de fungos”, disse Stewart ao The Guardian. “A forma mais evidente é com técnicas como a aração, que penetra no solo e literalmente o revira.”
A perda dessas redes pode ter consequências além do solo, pois os fungos ajudam a armazenar carbono, reciclam nutrientes e reduzem o transporte de nitrogênio e fósforo para corpos d’água. “Se eles desaparecerem, haverá muito mais produtos químicos nos cursos d’água”, afirmou Toby Kiers, diretora executiva da SPUN e coautora do estudo, ao The Guardian.
Perspectivas para a agricultura
Os pesquisadores ressaltam que não se trata de abandonar a agricultura moderna, mas de buscar formas de produzir alimentos em harmonia com os fungos. Práticas que mantenham comunidades subterrâneas saudáveis poderiam reduzir a dependência de fertilizantes e manter o armazenamento de carbono no solo. Mais estudos são necessários para compreender como diferentes técnicas agrícolas afetam essas redes.