O garoto Abner, 14, guarda como recordação a foto da cauda de uma baleia no mar tirada por ele. Portador de autismo, assim como o pai, Jocemiel de Oliveira Pereira, Abner foi com o irmão Pietro, 12, e a mãe, Reijane Souto dos Santos, em junho do ano passado, a um passeio de barco para ver baleias-jubarte em Ilhabela (SP). "Ele prestava atenção em cada detalhe do mar", diz a mãe. A família engrossou as estatísticas de uma modalidade de turismo que cada vez mais atrai visitantes fora da temporada de verão para o litoral norte paulista.

Com as jubarte, que em 2025 registraram o recorde de 836 registros no arquipélago, chegam visitantes. Segundo dados da Secretaria de Turismo de Ilhabela, no ano passado cerca de 25 mil pessoas foram ao arquipélago apenas para avistar baleias, mais que o dobro dos 12 mil visitantes de 2024. "Não poderíamos ter imaginado [os reflexos] nem nas nossas expectativas mais otimistas", diz Heloiza Gomes de Lacerda Franco, presidente da Associação Comercial Ilhabela. Para ela, essa é a terceira onda de grande impacto turístico dos últimos anos na cidade, depois dos navios de cruzeiro e dos casamentos na praia.

No segundo semestre, o Projeto Baleia Jubarte, que tem uma de suas bases na cidade, fará um censo com cruzamento de dados para avaliar os efeitos econômicos e de comportamento no município. "No ano passado fizemos pesquisas por conta própria e acreditamos que o número de pessoas vai aumentar em 2026", afirma Aurélio Rufo, coordenador de turismo da Prefeitura de Ilhabela. "É um mercado que vem crescendo muito, com mais prestadores de serviço e turistas vindo para a nossa região."

Barcos que antes levavam marinheiros e guias para as praias agora levam biólogos a bordo. As paradas são no mar, não mais na areia. Quem mergulha é o enorme cetáceo de até 16 metros de comprimento e 40 toneladas quando salta próximo à embarcação. O empresário Marcos Cará, 49, da operadora Maremar, investiu na compra de um barco novo, o quinto de sua frota. No pico da temporada, os cinco barcos chegam a fazer duas saídas por dia, com até 150 pessoas que pagam quase R$ 500 por algumas horas no mar. "Financeiramente, a temporada de cetáceos representa mais que a de verão, de sol e praia. Vem gente do mundo inteiro", diz Cará.

Ao todo, durante a temporada de verão, de dezembro a março, a ilha recebeu cerca de 867 mil visitantes. A projeção para os meses de maio a agosto é de aumento de 7% no fluxo de turismo, chegando a pouco mais de 674 mil turistas. "As projeções para 2026 chegam a mais de 2,3 milhões de turistas no ano", informa a prefeitura.

Com a proibição da caça em meados da década de 1980, a população de jubarte voltou a áreas que ocupava historicamente, como Ilhabela. A migração desses animais na costa do litoral norte começou a chamar a atenção há cerca de uma década, explica a bióloga Rafaela Souza, 40, coordenadora da base do projeto em Ilhabela. Anualmente, as baleias partem das ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, próximas à Antártica, e seguem pelo litoral paulista até o Nordeste para reprodução. O período de passagem pelo litoral norte vai de maio a agosto —cerca de cem já foram vistas em 2026, mas o maior movimento se concentra em julho.

Há casos excepcionais. Julio Cardoso, um dos fundadores da Associação ProBaleia, conta que em 2019 fotografou em Ilhabela uma jubarte identificada na Austrália em 2007 e 2013. "Ela saiu da Austrália, do Pacífico, veio para o Atlântico e chegou aqui em Ilhabela." A jornada de mais de 14 mil km foi descrita em artigo na revista Royal Society Open Science. Na última terça-feira (2), Cardoso acompanhou a Folha durante cerca de cinco horas de navegação, quando dois barcos avistaram oito baleias. A identificação de uma jubarte ocorre pela imagem da parte inferior da cauda, única em cada indivíduo.

Cardoso afirma que Ilhabela e a vizinha São Sebastião não podem ser vistas apenas como região de passagem, mas de alimentação, principalmente de baleias juvenis. "Isso é um fenômeno novo e ainda estamos nos preparando para fazer uma publicação sobre isso", diz. No barco, a bióloga Isabelle Avolio, 31, educadora ambiental do Projeto Baleia Jubarte, anotava dados como localização, temperatura e velocidade do vento. Segundo Rafaela Souza, o último levantamento aéreo, em 2022, apontou 35 mil animais durante as imigrações pelo litoral brasileiro. Um novo estudo será feito no segundo semestre.

Com o aumento de animais e turistas, crescem as preocupações. Para intensificar a fiscalização, a Prefeitura de Ilhabela concluiu licitação para contratar 120 saídas de barcos com biólogos e operadores de drones até 2027. As imagens de drones com infrações serão enviadas ao Ibama, que pode multar quem não respeitar regras como manter distância mínima de cem metros do animal e limitar a observação a 30 minutos. Também é feito trabalho de conscientização em marinas.

No último dia 2, na região da praia do Borrifos, duas jubartes nadavam próximas a três ou quatro embarcações. De repente, um enorme barulho à direita: era o primeiro de três saltos de uma delas. Após o espetáculo, a baleia mergulhou deixando a cauda à mostra, que deve ser catalogada como SP-0829.

Com informações de Folha — Cotidiano.