O fenômeno da "recessão das amizades" tem se intensificado na vida contemporânea, marcada pela escassez de tempo e pelo avanço da internet. De acordo com estudiosos, a dificuldade em cultivar relações profundas atinge principalmente os adultos, mas dados recentes indicam que as gerações mais jovens são as mais afetadas pela solidão.
Dados revelam encolhimento dos círculos de amizade
Um levantamento do Survey Center on American Life aponta que, nas últimas três décadas, o percentual de pessoas que afirmam ter um melhor amigo caiu de 75% para 59%. No mesmo período, o grupo que declara não ter ninguém próximo para desabafar saltou de 3% para 12%. Outro estudo, da plataforma Headway, mostra que a maioria mantém entre um e três confidentes, e 59% dos entrevistados admitem precisar de mais amigos.
Segundo a psicóloga Camila Ribeiro, "o que observamos hoje é uma perda do tempo emocional para sustentar a intimidade e consolidar ligações duradouras". A especialista relaciona o cenário à rotina acelerada e à falta de espaços para encontros espontâneos.
Impacto da internet e dos "terceiros lugares"
O sociólogo americano Ray Oldenburg cunhou o conceito de "terceiros lugares" — ambientes como praças, clubes e bares, onde ocorriam interações despretensiosas. Com a digitalização da vida, esses espaços perderam força. O programador Kaique Bonin, de 33 anos, exemplifica: "A gente fala bastante pelo WhatsApp, mas ali é diferente. Não gera a mesma conexão".
O psiquiatra Arthur Guerra, do Hospital Sírio-Libanês, observa que "a vida ficou mais prática com toda a infraestrutura virtual de deliveries e streamings, porém, mais pobre em oportunidades de convivência". Ele alerta para a necessidade de atenção a essa mudança.
Jovens são os mais solitários
Dados da Pew Research revelam um paradoxo: apenas um em cada três americanos com menos de 30 anos possui pelo menos cinco amigos próximos, enquanto metade dos maiores de 65 anos mantém círculo semelhante ou maior. "A geração mais conectada da história figura também entre as mais solitárias", afirma Guerra.
O individualismo, marca da juventude atual, e a rapidez das interações digitais dificultam a construção de vínculos densos, segundo os especialistas.
Intencionalidade como saída
Para reverter o quadro, o psicólogo Cláudio Paixão, da UFMG, defende que "a amizade entre adultos exige intencionalidade". Ele explica que, enquanto entre os jovens os laços surgem naturalmente, na vida adulta é preciso protegê-los ativamente.
A economista Nathalia D'Alessandro, de 42 anos, percebeu o encolhimento de seu círculo social e agiu: "Coloquei como meta na agenda fazer amigos". Ela relata que, às vésperas do ano-novo, notou que não tinha uma amiga para brindar e incluiu o cultivo de amizades em suas resoluções para 2026. Especialistas lembram que a qualidade dos laços importa mais que a quantidade, ecoando a visão de Aristóteles de que "o que é um amigo? Uma única alma habitando dois corpos".
Com informações de Veja.