Desde que Francisco Negrão de Lima deixou o governo da Guanabara em 1971, apenas ele completou o mandato sem ser alvo de denúncias, investigações ou processos por corrupção. Nos 55 anos seguintes, os 13 ocupantes do Palácio Guanabara — entre eleitos e interinos — enfrentaram acusações que levaram a prisões, cassações, impeachment ou condenações. A crise sucessória de 2026 é o capítulo mais recente dessa história, com o governador Cláudio Castro renunciando após ser declarado inelegível e uma complexa linha sucessória que terminou nas mãos de um desembargador.
Governadores eleitos desde a redemocratização
Leonel Brizola foi o primeiro governador eleito por voto direto após o regime militar. Ao lado de Marcello Alencar, é um dos únicos que não sofreu prisão ou condenação criminal. No entanto, seu segundo mandato foi marcado por investigação do Ministério Público sobre suposto pagamento de mesada de US$ 10 mil por bicheiros à cúpula da Polícia Civil. Décadas depois, delatores da Odebrecht citaram irregularidades em contratos do Sambódromo e dos CIEPs, mas o STF arquivou o pedido de inquérito em 2017 por falta de provas. Brizola morreu em 2004 sem condenações.

Moreira Franco, que governou entre 1987 e 1991, foi preso em 2019 na Operação Lava Jato, acusado de negociar R$ 1 milhão em propinas com a Engevix nas obras de Angra 3. A 11ª Vara Federal do Rio o absolveu por falta de provas materiais. Na esfera civil, foi condenado a devolver R$ 2 milhões por irregularidades no uso de verbas da educação. Antes, em 1982, esteve envolvido no caso Proconsult, tentativa de manipulação de eleição.
Marcello Alencar, governador entre 1995 e 1999, foi denunciado em 2006 por peculato e corrupção passiva, acusado de desviar R$ 7,2 milhões em verbas de publicidade para a empresa do marqueteiro Duda Mendonça. A denúncia afirmava que agências eram obrigadas a contratar Mendonça. Alencar negou as irregularidades e morreu em 2014 sem condenação definitiva.
Anthony Garotinho renunciou em 2002 para disputar a presidência. Entre 2016 e 2019, foi alvo de cinco mandados de prisão preventiva. Na Operação Chequinho, foi condenado por compra de votos via programa Cheque Cidadão. Na Operação Caixa d'Água, respondeu por extorsão e organização criminosa. Vários processos foram anulados por cortes superiores. Em 2018, teve a candidatura barrada por condenação por improbidade administrativa.
Rosinha Garotinho, sucessora do marido, também sofreu três ordens de prisão preventiva entre 2017 e 2019, acusada de integrar organização criminosa e superfaturar contratos com a Odebrecht. As ações penais foram anuladas e ela responde em liberdade.
Sérgio Cabral governou durante o boom dos royalties do pré-sal, Copa e Olimpíadas. Foi preso em 2016 acusado de chefiar organização criminosa que cobrava 5% de propina sobre contratos. Recebeu 23 condenações, somando mais de 430 anos de prisão. Teve a delação anulada pelo STF em 2021 e obteve liberdade em 2022 após seis anos de prisão preventiva. Responde a mais de 30 ações penais.
Luiz Fernando Pezão, vice de Cabral, assumiu após a renúncia e enfrentou o colapso fiscal do estado. Foi preso em 2018, a 32 dias do fim do mandato, acusado de integrar a organização de Cabral e receber mesada de R$ 150 mil. Condenado a 98 anos em primeira instância, foi absolvido por unanimidade pelo TRF-2 em 2023. Em 2024, foi eleito prefeito de Piraí.
Wilson Witzel, ex-juiz federal eleito em 2018, foi o primeiro governador a sofrer impeachment na redemocratização, em 2021, por suspeita de fraudes em contratos de saúde durante a pandemia. Perdeu o mandato e foi declarado inelegível por cinco anos. Quatro ações penais seguem em curso, sem condenação até agora. Witzel se declara vítima de “golpe” e foi lançado pré-candidato ao governo pelo Partido Democrata.
A crise sucessória de 2026
Cláudio Castro, vice de Witzel, assumiu e foi reeleito em 2022. Em julho de 2024, a Polícia Federal o investigou por corrupção em contratos de assistência social. As operações Sem Refino (favorecimento à Refit) e Compliance Zero (desvio de R$ 3 bilhões do Rioprevidência) miraram seu entorno. O TSE, porém, o condenou por montar 27 mil contratações fantasmas na Ceperj e Uerj para remunerar cabos eleitorais, suspendendo seus direitos políticos por oito anos. Castro renunciou em 23 de março de 2026, na véspera da sentença, para tentar concorrer ao Senado, mas desistiu após novas buscas da PF. Sua defesa alega falta de provas.
O vice Thiago Pampolha havia deixado o cargo para assumir vaga no Tribunal de Contas do Estado. O presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, primeiro na linha sucessória, foi preso e cassado sob acusação de vazar informações sigilosas para o Comando Vermelho. Sem políticos eleitos disponíveis, o comando do estado recaiu sobre o desembargador Ricardo Couto, quarto na ordem sucessória. O STF decide se o substituto definitivo será escolhido por voto popular ou pela Assembleia Legislativa.