A primeira Copa do Mundo realizada sob uma avalanche de publicidade de casas de apostas na imprensa e nas transmissões esportivas já movimenta bilhões de reais em apostas no Brasil. Os impactos devem ultrapassar o universo do futebol e atingir a renda e a saúde mental das famílias brasileiras.

Pesquisas divulgadas em 2025 já mostraram que as bets se tornaram uma das principais causas de endividamento no país com o vício causado pelos jogos. E este ano, a indústria das apostas ganhou ainda mais força com o incentivo de influenciadores digitais, youtubers, jornalistas esportivos e até jogadores da Seleção Brasileira.

Na contramão desse movimento, poucos jogadores têm se manifestado contra a promoção das apostas esportivas. Veja quem se posicionou até agora:

Danilo Luiz

O lateral da Seleção Brasileira, de 34 anos, nascido em Bicas (MG) Danilo Luiz mostrou que sua atuação vai além dos gramados e contrariou os parceiros da seleção. Convocado por Carlo Ancelotti, o atleta do Flamengo foi um dos primeiros a utilizar as redes sociais para criticar a divulgação de plataformas de apostas online.

Ele aderiu à campanha “Block no Tigrinho”, movimento que defende a proibição da publicidade de plataformas de apostas. Em suas redes, o jogador declarou apoio à iniciativa da 342 Artes criada para conscientizar a população sobre os riscos das bets.

Relembre a campanha “chega de Bets, Tigrinho e cassinos online”

Após várias denúncias, uma mobilização de artistas e personalidades brasileiras nas redes sociais coemçou a alertar sobre os riscos das apostas online e dos jogos de azar que se popularizaram no país. Batizada de “Block no Tigrinho, a campanha é liderada pelo movimento 342 Artes e reúne nomes consagrados da cultura nacional em defesa de medidas para conter os impactos sociais, financeiros e psicológicos provocados pelas chamadas “bets”.

Entre os participantes estão artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Paulinho da Viola, Anitta, Marieta Severo, Alinne Moraes, Emicida e Camila Pitanga. A iniciativa busca conscientizar a população sobre problemas como endividamento, vício em jogos e transtornos relacionados à saúde mental.

Nas publicações da campanha, os artistas questionam a normalização da publicidade de plataformas de apostas e cobram que influenciadores digitais deixem de promover esse tipo de conteúdo. O slogan adotado pelo movimento é: “De que lado da influência você está?”.

Segundo os organizadores, um dos principais alvos da mobilização é a atuação de criadores de conteúdo que divulgam plataformas de apostas para milhões de seguidores. A campanha denuncia o uso de chamadas “contas demo”, sistemas em que influenciadores jogariam com dinheiro fictício e resultados previamente configurados para aparentar ganhos frequentes, criando uma falsa expectativa de lucro fácil.

Diego Ribas

Após o atacante Bruno Henrique, do Flamengo, ser indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de participação em um esquema de manipulação esportiva relacionado ao mercado de bets, o ex-meia, Diego Ribas, ídolo da equipe rubro-negra, publicou um vídeo nas redes sociais no ano passado, alertando para os riscos associados à expansão das plataformas de apostas no Brasil.

Sem citar diretamente o nome do ex-colega, Diego afirmou ser contrário às bets e destacou que o setor se beneficia da promessa de ganhos fáceis e da expectativa de enriquecimento rápido. Nas palavras do ex-jogador, a dependência é alimentada pela ilusão de retorno financeiro, criando um ciclo que afeta milhões de pessoas e pode provocar prejuízos econômicos, emocionais e familiares. O posicionamento se somou ao de outros nomes do futebol, como Danilo Luiz e Filipe Luís.

Filipe Luiz

Filipe Luís também se manifestou publicamente contra a expansão das apostas esportivas no futebol brasileiro. Em 2025, quando ainda comandava o Flamengo, o treinador abordou o tema durante uma entrevista coletiva após uma partida contra o Juventude pelo Campeonato Brasileiro. Na ocasião, ele citou um vídeo publicado por Diego Ribas e revelou ter recusado propostas de empresas do setor para associar sua imagem às plataformas de apostas.

Bets drenam R$ 30 bilhões por mês e levam mais de 200 mil brasileiros à inadimplência

De janeiro de 2023 a março de 2026 a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. O montante equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.ebcebc

O crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas nesse período foi superior a R$ 30 bilhões por mês. O dito “entretenimento” comprometeu a disponibilidade de renda para manter o pagamento em dia das dívidas e podem ter levado 270 mil famílias a situação de “inadimplência severa” – incapacidade de pagar marcada por atrasos de 90 dias ou mais.

As estimativas são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Para a entidade empresarial, “as bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo.”

A confederação avalia que inadimplência decorrente de gastos com as bets tem impacto sobre o consumo e nas vendas do comércio varejista. De acordo com o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, “a tendência” é que em situação de aperto financeiro das famílias gastos não essenciais e até essenciais sejam “sacrificados.”

“Podem deixar de trocar de celular ou podem deixar de comprar uma peça de vestuário por causa de agravamento da sua dívida”, exemplifica Bentes, que apresentou nesta terça-feira (28) em Brasília análise econométrica (estatística e matemática) em dados apurados pela própria CNC e colhidos do Banco Central.

Conforme a avaliação da confederação, os impactos das bets sobre o endividamento – que interfere na capacidade de consumo – é variável conforme o grupo demográfico. “Homens, famílias de baixa renda [até 5 salários mínimos], pessoas mais velhas (35+ anos) e aquelas com maior escolaridade (2º grau+) apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos das apostas.”

Os gastos com as apostas em plataformas eletrônicas podem até afligir famílias com renda superior, que segundo a CNC, “desviam recursos para as bets e deixam de honrar compromissos”, o que acarreta em atrasos e também em inadimplência.

“As bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substituto de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência”, descreve apresentação da entidade.

Limites ao mercado

O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas e de proteção a consumidores.

Em nota à imprensa, ele afirmou que as apostas online estão comprometendo a renda das famílias brasileiras. “O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras.”

De acordo com a CNC, oito em cada vez famílias (80,4¨%) estão endividadas no Brasil. O indicador é próximo aos 78% verificado no final de 2022. Entre 2019 e aquele ano, a proporção de famílias endividadas cresceu quase 20 pontos percentuais.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) que representa as plataformas de aposta eletrônica que operam legalmente no Brasil, enviou ontem (27) notificação formal à CNC cobrando “transparência metodológica” e “acesso integral” às bases de dados que a entidade usa para avaliar o impacto das bets no endividamento das famílias.

Para o IBJR, outras edições do estudo partiram de “premissa completamente desalinhada com os dados oficiais.” Conforme o instituto, “as conclusões divulgadas pela CNC são alarmistas e contrariam frontalmente as métricas oficiais.”

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também disse que os números apresentados pela CNC “não condizem com os dados oficiais do governo e do setor.”

Segundo a associação, a CNC desconsidera “a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros.”

‘Bets precisam ser encaradas como elementos que fazem mal à saúde’

Em entrevista aà edição do Fórum Onze e Meia do dia 18 de maio, a ex-ministra da Saúde, socióloga, sanitarista e pré-candidata a deputada federal, Nísia Trindade, comentou que o Brasil deveria ter avançado mais na questão das apostas esportivas, organizando medidas interministeriais que tratassem o avanço desse mercado com um problema de saúde pública.

“Nossa Constituição não permite os jogos de azar, mas uma lei se tornou meio que uma base jurídica legal para a existência dos jogos eletrônicos e eles precisam ser encarados como elementos que fazem muito mal à saúde”, afirmou Nísia, se referindo às bets.

A ex-ministra comparou o combate às bets com o combate ao tabaco nas últimas décadas. “No caso das bets, o endividamento, a pressão sobre as famílias, sobre a saúde mental é imensa, e até mesmo sobre o comércio”, diz ela.

“Eu conversava, há cerca de uma semana, com o presidente da Associação Comercial do Estado do Rio de Janeiro, Josier Vilar, e ele me falava dessa grande preocupação no estado do Rio de Janeiro com a questão das pessoas se endividando e com impacto até mesmo no seu consumo, de coisas que poderiam fazer bem à sua vida, ao seu bem-estar. Eu acho que essa seria uma pauta muito importante”, afirmou Nísia.