Em artigo publicado na Revista Cult, o psicanalista Oscar Cesarotto aborda a violência, a segregação e a discriminação como fenômenos estruturais do laço social, e não como acidentes históricos ou desvios morais. Partindo da provocação “Odiaivos uns aos outros”, o autor recorre à psicanálise para demonstrar que o ódio ao semelhante é uma possibilidade inerente à vida em comum.
Segundo Cesarotto, Sigmund Freud já apontava, em O mal-estar na civilização, que a cultura exige renúncia pulsional, mas a agressividade não desaparece: ela é recalcada, deslocada e retorna como hostilidade contra o outro. Em Além do princípio do prazer, Freud introduz a pulsão de morte, indicando uma tendência à repetição e à destruição que excede o princípio do prazer. Assim, a violência tem raiz pulsional, e a cultura apenas organiza parte dessa força, sem eliminá-la.
Linguagem e segregação
Com Jacques Lacan, a questão se radicaliza. O simbólico opera por diferença significante: um significante só existe por se distinguir de outro, instituindo um dentro e um fora. Em O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise, Lacan formaliza os discursos e afirma que a fraternidade se funda na segregação. Um grupo se constitui ao se identificar a um traço comum (o S1), mas todo traço comum implica aqueles que o partilham e aqueles que ficam excluídos. A segregação, portanto, é um efeito estrutural da operação significante.
Discurso religioso e discurso científico
Cesarotto analisa dois grandes discursos que organizam a modernidade: o religioso e o científico. O discurso religioso opera pela produção de sentido, realizando o que o autor chama de RSI (realização do simbólico imaginário). Um exemplo é o ritual da eucaristia, que realiza simbolicamente o que é imaginado como presença divina. Quando o saber falha, a religião oferece sentido, injetando significação no vazio de saber. Por isso, Lacan afirma, em O triunfo da religião, que a religião triunfará por sua capacidade de absorver o real e recobri-lo com sentido.
Já o discurso científico opera segundo a articulação SIR (simbolização do imaginário real). A ciência procura simbolizar fenômenos empíricos do real, como no desenvolvimento da informática e da inteligência artificial. No entanto, o discurso científico, aliado ao discurso universitário, produz sujeitos classificáveis e normatizados, gerando um resto que não se encaixa na norma. Esse resto aparece como excesso, dando origem a formas contemporâneas de segregação, como racismo estrutural e biopolíticas de controle dos corpos. Além disso, a ciência produz cada vez mais pedaços de real (vírus, tecnologias de guerra, sistemas de vigilância) que podem escapar ao controle, como mostrou a pandemia de Covid-19.
Discurso psicanalítico e ética do não-todo
Entre a religião (que produz sentido) e a ciência (que produz real), situa-se o discurso psicanalítico, que opera segundo a articulação IRS (imaginário do real simbolizado). O analista, ao escutar o sujeito, tenta imaginar aquilo que do real pode ser simbolizado, sustentando o ponto onde o saber falha. A psicanálise opera a partir do resto, sem prometer verdade revelada ou objetividade totalizante.
Cesarotto retoma a frase de François Rabelais — “Ciência sem consciência não é senão ruína da alma” —, que Lacan utiliza em O seminário 21 – Os não-tolos erram para indicar que o saber, separado da responsabilidade subjetiva, pode tornar-se instrumento de destruição.
Em O seminário, livro 19: …ou pior, Lacan apresenta as fórmulas da sexuação. Do lado masculino, a lógica do todo (universal sustentado por uma exceção) estrutura universalismos identitários que excluem o que não se enquadra. Do lado feminino, a lógica do não-todo impede o fechamento completo do universal, introduzindo uma abertura estrutural contra os totalitarismos.
Pulsões e nó borromeano
A segregação também se sustenta em mecanismos pulsionais. O olhar (objeto da pulsão escópica) fixa o outro em um traço visível, transformando a diferença em estigma. A voz (pulsão invocante) convoca e interpela, criando comunidade contra alguém. A escuta analítica, ao contrário, não convoca à identificação coletiva, mas sustenta a singularidade da fala.
Nos últimos seminários, Lacan formaliza o nó borromeano entre real, simbólico e imaginário. A violência pode ser pensada como efeito de falhas nesse anelamento: quando o imaginário domina, surgem rivalidades especulares; quando o simbólico se absolutiza, há burocratização e exclusão normativa; quando o real irrompe sem mediação, ocorre a passagem ao ato. A segregação tenta restaurar artificialmente uma separação rígida entre dentro e fora, mas a topologia lacaniana mostra que interior e exterior se implicam mutuamente, como na banda de Möbius.
Conclusão
Para Cesarotto, violência, segregação e discriminação são efeitos estruturais da linguagem e da economia do gozo. A psicanálise não elimina a segregação estrutural, mas impede que o resto seja convertido em dejeto humano. A ética possível frente aos discursos de ódio reside na sustentação do não-todo, na escuta da singularidade e na recusa de transformar o diferente em inimigo.
Com informações de Revista Cult.