A província de Alberta, no Canadá, anunciou a abertura de um processo legal para avaliar a separação do país. A primeira-ministra provincial, Danielle Smith, informou que será realizado um referendo em outubro para consultar a população sobre o tema.

O movimento ocorre em meio a tensões entre o governo provincial e o governo federal, liderado pelo primeiro-ministro Mark Carney. Alberta alega que as políticas ambientais federais, como metas de emissão de carbono e regulações de transição energética, prejudicam sua principal atividade econômica: a exploração de petróleo e gás natural.

Alberta possui o maior PIB per capita entre as províncias canadenses, de aproximadamente 72 mil dólares canadenses, cerca de 30% acima da média nacional, impulsionado por suas reservas de petróleo e minerais. Líderes regionais argumentam que o governo federal impõe pautas ambientais sem considerar as necessidades econômicas regionais.

O professor de geopolítica da ESPM, Leonardo Trevisan, afirmou que o governo provincial reconhece a baixa expectativa de aprovação da medida na Justiça. A estratégia, segundo ele, é pressionar por mais soberania em questões regulatórias ambientais. “Em Alberta há carvão, petróleo, gás e xisto, extraído por fraturamento, que é altamente poluente. Há forte controle ambiental, enquanto os donos das minas pressionam para manter a atividade sem interferência federal”, explicou.

Pesquisa do Instituto Angus Reid, realizada entre 22 e 24 de maio com 800 adultos de Alberta (margem de erro de 3%), indica que 60% votariam contra a realização de um referendo vinculativo sobre a secessão, enquanto 35% apoiariam a medida.

Frederico Dias, professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, afirmou que uma eventual secessão de Alberta traria impactos profundos para o Canadá. “A perda de uma província rica em recursos naturais, especialmente petróleo, levaria a uma diminuição substancial da base tributária e da capacidade econômica do Canadá, desestabilizando as finanças federais e afetando programas sociais e investimentos em infraestrutura”, disse. Ele acrescentou que a saída de Alberta exacerbaria tensões entre as províncias restantes e o governo federal sobre distribuição de recursos, potencialmente incentivando outros movimentos regionalistas.

O plano de independência de Alberta, conhecida como o “Texas canadense” por seu perfil conservador e base econômica petrolífera, é visto como um revés para o governo Carney, que assumiu em março de 2025 com a tarefa de manter a unidade canadense após a saída de Justin Trudeau.

Mesmo que o referendo não resulte em separação, a busca por independência já gerou instabilidade interna. Além disso, o governo Carney enfrenta tensões com os Estados Unidos, após o anúncio de tarifas comerciais pelo presidente Donald Trump. O governo canadense se posicionou contra a pressão comercial americana e busca alianças alternativas.

Dias avaliou que a política “America First” de Trump pode se aproveitar do movimento separatista em Alberta para extrair concessões do Canadá. “Trump poderia ameaçar reconhecer ou apoiar a independência de Alberta, ou oferecer acordos comerciais bilaterais vantajosos diretamente com uma Alberta ‘independente’ ou ‘autônoma’, contornando o governo federal”, afirmou. Trevisan destacou que o principal interesse de Trump seria o petróleo canadense, lembrando que ele já defendeu a anexação do Canadá como 51º estado.

Com informações de Gazeta do Povo.