Na quinta-feira, 11 de junho, enquanto a Copa do Mundo de 2026 era aberta no Estádio Azteca, na Cidade do México, milhares de pessoas protestaram pelas ruas da capital para chamar a atenção para a grave crise humanitária dos desaparecidos no país. Segundo dados oficiais, mais de 130 mil pessoas estão desaparecidas no México.
Manifestações e estratégia de visibilidade
Com vuvuzelas, bandeiras e camisetas da seleção mexicana, famílias de desaparecidos de todo o país se misturaram a torcedores e aproveitaram a cobertura midiática internacional. Cartazes com fotos de ausentes foram espalhados por pontos emblemáticos, como o Anjo da Independência e a Glorieta de la Palma, rebatizada por movimentos sociais como 'glorieta dos desaparecidos'. Pelo menos nove marchas e 26 concentrações ocorreram, mobilizando cerca de 6 mil pessoas, segundo a Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE).

Na véspera do torneio, o ato 'Iluminemos la búsqueda' reuniu grupos de ao menos 10 estados mexicanos em uma marcha fúnebre ao redor do estádio. O Coletivo Luz de Esperança de Jalisco levou mais de 100 famílias buscadoras. 'Por que os procuramos? Porque os amamos! Até quando os procuraremos? Até encontrá-los!', eram os gritos de ordem.
Histórias de dor e luta
Yuri Peralta, camareira em um hotel de luxo, segurava um cartaz com o rosto do marido Luis Fernando Luna Juárez, desaparecido em 2025, em formato de álbum de figurinhas. 'Para que se veja quantas pessoas estão desaparecidas. Para nos fazermos presentes', disse. Héctor Flores, cofundador do Coletivo Luz de Esperança, procura o filho Héctor Daniel, vítima de desaparecimento forçado em maio de 2021. Ele afirmou que a Copa é 'uma oportunidade única' para visibilizar a crise.

Liliana Meza, presidente do mesmo coletivo, teve o filho Carlos Maximiliano, então com 18 anos, levado por um grupo armado que se apresentou como policiais em outubro de 2020. 'O que eles mais capturam são os jovens, pois se trata de mão de obra gratuita', explicou. As câmeras de segurança que poderiam comprovar o sequestro foram deletadas.
Números e contexto
Segundo relatório da Anistia Internacional de 2025, o México acumula 133.500 desaparecidos, com aumento de 10,5% em relação ao ano anterior. O país ocupa o quarto lugar no Índice de Conflitos e Violência Política 2025, atrás apenas de Palestina, Mianmar e Síria. O estado de Jalisco concentra o maior número de registros: mais de 16 mil, atribuídos principalmente ao Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).

Em março de 2025, a presidente Claudia Sheinbaum apresentou uma declaração sobre pessoas desaparecidas, criticada por 158 coletivos por excluir as famílias. Em dezembro, ela afirmou que muitos casos seriam 'ausências voluntárias', o que gerou indignação. O governo federal não respondeu aos pedidos de entrevista da reportagem.
Avanços locais
Em Jalisco, o governador Pablo Lemus Navarro (Movimiento Ciudadano), ao assumir em dezembro de 2024, reconheceu a gravidade da crise, ao contrário de seu antecessor. O Congresso estadual aprovou em outubro de 2025 a lei 'Famílias buscadoras, famílias prioritárias', que garante acesso a programas sociais e transporte público gratuito. O coletivo também conquistou botões de pânico e o reconhecimento judicial de desaparecimento forçado em um caso.
Durante uma busca de campo acompanhada pela reportagem, integrantes do Luz de Esperança encontraram uma vértebra e uma costela humanas em um lixão. 'Aqui é o lugar ideal para o crime organizado despejar cadáveres', disse Lupita Rivera, mãe de Christian Emmanuel Rivera Cedeño, desaparecido desde agosto de 2023. A operação contou com apoio institucional por causa da presença de jornalistas internacionais, o que é raro.
Liliana Meza afirmou que continuará a luta: 'Enquanto não existir um corpo, não vou sossegar. A esperança é a última que morre.' Ela espera que a crise um dia fique 'nos livros de história' do México.
Com informações de Agência Pública — leia a matéria original.